O ano passado chegava ao fim e o presidente Fernando Henrique garantia à Nação: ‘‘Os catastrofistas devem pôr as barbas de molho. 98 será melhor que 97’’. Houve quem acreditasse e até hoje, a três dias do final do ano, aos 44 minutos do segundo tempo, espere uma boa notícia que confirme a previsão de FHC. Mas agora parece tarde demais para que surja esse fato novo, desmentindo assim as previsões pessimistas que os catastrofistas, num péssimo hábito, costumam fazer a cada ano, embora eles ganhem para isso.
Escaldado pelo otimismo demonstrado em dezembro do ano passado, Fernando Henrique foi mais realista nos seus últimos pronunciamentos públicos. Diante de uma platéia de 300 empresários pesos pesados, o presidente anunciou que 1999 será um ano de ‘‘dureza, correção, preparação’’ e não de ‘‘facilidades’’.
Disse ainda que levará adiante, ‘‘custe o que custar e de forma tenaz e prioritária’’, o combate ao déficit fiscal. E concluiu: será necessário muito suor e lágrimas para garantir o ajuste das contas públicas, porque é difícil cortar despesas. Mas garantiu: ‘‘Que ninguém duvide: eu farei.’
Depois desse duro recado aos empresários, que, como sempre, respingará nos não-empresários do País, resta-nos o consolo de cruzar os dedos e rezar para evitar o pior. Mas, na verdade, o que ainda pode ser pior do que 1998? Afinal, foi o ano do desemprego recorde no Brasil, das pílulas de farinha, do desabamento do Palace 2, da profusão de remédios falsificados, da derrota da Seleção no Mundial da França, do Maníaco do Parque, do aumento da CPMF, da reforma da Previdência, das baixarias cada vez mais disseminadas na TV, de crimes bárbaros em Brasília, da sangria de dólares, da crise do sistema financeiro internacional, da suspeita privatização da Telebrás, da queda do Fluminense para a Terceira Divisão, da ridícula corrida de falsas louras em busca de seus 15 minutos de fama balançando o tchan, da volta do Brasil ao FMI, do chatíssimo folhetim Clinton/Lewinsky, e vai por aí. A lista é enorme.
Em compensação, o difícil ano passou depressa por causa da Copa e das eleições de outubro, quando mais uma vez consolidamos a democracia no País. Tivemos também a glória de ser vitoriosos no mundo do cinema, graças ao belo e sensível ‘‘Central do Brasil’’, e fomos brindados com os belos olhos de Ana Paula Arósio e a silhueta de Suzana Alves, a Tiazinha. Além disso, boa parte do Planeta comemorou a prisão do ex-ditador Augusto Pinochet na Inglaterra.
Para demonstrar que é preciso manter o otimismo, o ano que vem poderá nos trazer, por exemplo, a glória do primeiro Oscar brasileiro, com o mesmo ‘‘Central do Brasil’’. Mas como não haverá Copa do Mundo nem Olimpíadas nem eleições, seremos obrigados a conviver muito mais tempo com a realidade do dia-a-dia.
Mas Deus é grande e a esperança é a última que morre. Dá para torcer por um 1999 melhor que 1998, apesar dos catastrofistas. Mesmo porque, no ano passado, o presidente já demonstrou que não é tão bom assim em futurologia. E, agora, Fernando Henrique pode estar novamente equivocado em suas previsões.

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