O que pensa o povo brasileiro?
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de janeiro de 2008
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
O Brasil é o país do futuro, como você já deve ter ouvido falar muitas vezes por aí. Somos um povo carismático, que vive em uma terra ''abençoada por Deus e bonita por natureza''. Mas a realidade brasileira é muito diferente da pregada pelas frases batidas, principalmente com relação ao comportamento da população, como mostra o livro ''A cabeça do Brasileiro'', do professor universitário Alberto Almeida.
O autor ouviu mais de duas mil pessoas em 102 cidades brasileiras na pesquisa que abordou temas como relações raciais, religião, cultura, política, violência, comportamento sexual, direito civil e desigualdade social, entre outros. ''São valores básicos e enraizados que demoram a mudar'', afirma.
Em entrevista à FOLHA, Almeida coloca a baixa escolaridade média da população como principal responsável pelo conservadorismo, o comodismo e o famoso ''jeitinho'' brasileiro de lidar com as situações, apontando a educação a longo prazo como alternativa para mudar este panorama.
Como podemos classificar o perfil básico do brasileiro?
Na média, a escolaridade do brasileiro é muito baixa quando você compara a outros países do mundo. Isso faz com que ele seja muito conservador, tradicionalista, com mentalidade arcaica. Na prática, significa que ele ainda carrega preconceito contra homossexuais, apóia o ''jeitinho'', mistura o que é público e o que é privado, e aí você entende porque o espaço público é tão maltratado no Brasil. Ele ainda acha que o governo tem o papel de prover tudo - como se o governo fosse onipotente - e que o destino está nas mãos de Deus. Além disso, existe uma divisão muito grande no país. Quem tem ensino superior pensa de uma maneira muito diferente de quem foi apenas até o primeiro grau. Quando o assunto é sexualidade, as pessoas com formação de primeiro grau são muito conservadoras, contra sexo anal, restritivas ao sexo oral. As de nível superior não têm nada contra isso, são muito mais liberais.
A diferença regional é muito grande?
Existe, mas não é o fator determinante. Na região Sul as pessoas são menos conservadoras em tudo. Não porque nasceram no Sul, mas porque a escolarização é mais alta. Como no Nordeste a escolarização é mais baixa, o nordestino acaba sendo mais conservador. Fiz uma pesquisa comparando o comportamento sexual de jovens de 18 e 24 anos em cidades como Porto Alegre, Rio de Janeiro e Salvador. Os jovens gaúchos são mais liberais do que no Rio e em Salvador. Vai contra o que todo mundo pensa.
E na esfera política, como é o comportamento do brasileiro?
A política possui valores que demoram a mudar, e as pessoas confudem um pouco as coisas. O mesmo eleitorado que elegeu o Lula elegeu o Fernando Henrique. A sociedade brasileira tem um acordo básico de tolerar a corrupção. Nos próximos 20 anos a corrupção vai ser alta, seja no município, no estado ou no governo federal. Depois desse período vai diminuir, porque a escolarização aumenta. É lento, mas aumenta. E quanto maior é a escolarização e a renda, mais a pessoa participa da política. Se a pesquisa fosse feita 20 anos atrás, você teria uma população mais acomodada com relação à política. Se ela for repetida em 2022, a povo será mais ativo porque vai aumentar a escolarização. E isso vale não só para o Brasil mas também para qualquer país do mundo.
Quando o assunto é violência, o brasileiro tende a ser mais radical?
O brasileiro acha que a violência pode ser usada para combater a violência. Apóia o linchamento, o ''olho por olho, dente por dente''. Se um estuprador for preso, pode ser estuprado dentro da cadeia. Tecnicamente, a gente sabe que isso não funciona. O bandido fica com mais ódio e acaba sendo mais violento ainda. É uma visão anti-institucional. A maneira de combater o crime é prender o suspeito, investigar, julgar e dar direito de defesa, depois oferecer condições minimamente dignas na prisão. Mas o brasileiro pensa assim: a polícia pegou, o cara está roubando? Mata! Isso não está relacionado à crença na Justiça, ou na polícia. Tanto aqueles que acreditam como os que não acreditam na Justiça, defendem igualmente o uso da violência para combater a violência.
O famoso ''jeitinho brasileiro'' é uma característica da maioria da população? Como corrigir isso?
O brasileiro inclusive se orgulha de dar um jeitinho. A solução é a escolarização a longo prazo. Não acontece de uma hora para outra. Tem gente que acha que é só mudar o governo que tudo melhora. Isso não existe. Você tem que mudar a sociedade. Para isso é necessário um investimento pesado em estrutura educacional. Acabar com a evasão escolar, melhorar a qualidade do ensino, valorizar professor. Não é o governo que precisa mudar, é a sociedade que precisa melhorar.


