Os comandantes das Forças Armadas - Exército, Marinha e Aeronáutica - estão examinando com reserva o pedido do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, para que auxiliem no combate à criminalidade em seu Estado. Em princípio, consentiu-se apenas que haverá a ajuda de 435 agentes da Força Nacional de Segurança e de 200 a 300 membros da Polícia Rodoviária Federal. E assim mesmo eles só marcarão presença nas ruas e não irão capturar bandidos. Essa cooperação terá duração determinada e tomará o lugar dos policiais que hoje guardam pontos estratégicos em vias expressas e acessos à cidade, e que, liberados, irão para a missão pesada do combate à bandidagem.
A função das Três Armas é específica e destina-se a garantir a ordem pública em casos de convulsão, preservar as instituições e a soberania nacional, guardar as fronteiras nacionais e proteger o patrimônio público e, naturalmente, ir para fronts de guerra se necessário. Escasseiam-lhes os treinamentos de academia próprios da Polícia, para operações contra a criminalidade clássica, que campeia sobretudo nos centros urbanos. A presença do Exército em tarefas que não lhe são pertinentes, como as reclamadas pela turbulenta cidade do Rio de Janeiro, irá caracterizar que o governo fluminense perdeu o controle da ordem no Estado, o que de fato ocorre, mas isso a instituição governamental não deseja admitir, porque significa a falência do poder de segurança.
Este o ponto fundamental. Policiar o Estado e a cidade é atribuição do governador Sérgio Cabral, e se ele for atendido no que pede - a intervenção do Exército - também as demais unidades da Federação terão direito a ajuda idêntica. Se as Forças Armadas devem, sim, atuar em missões de segurança nacional, de auxílio à Polícia Federal no combate à entrada do contrabando, de drogas e armas, assim como na preservação das florestas contra a destruição e as invasões, não pode lançar seus soldados em operações para as quais não foram habilitados. O governador carioca que cuide de seu Estado e de sua principal cidade, que tem características peculiares e concentra comandos do crime organizado - e para isto ele já conta com a ajuda da Polícia Federal - mas ao candidatar-se ele sabia o que o aguardava, até porque é carioca desde criancinha.
Óbvio que as Três Armas podem cooperar, em casos como o do Rio, porém apenas com a presença das tropas em missão ostensiva e pelo uso de helicópteros e outros veículos específicos de apoio. Será preciso o governador desdobrar-se no que lhe compete, como comandante de uma metrópole perigosa, da mesma forma que cada governante estadual atende aos seus problemas localizados e precisa dar conta do recado, sem buscar ajuda externa quando não for pertinente. As Forças Armadas não estão imunes de cobranças, porque compõem uma onerosa instituição mantida pelos recursos do contribuinte, mas suas atribuições são outras. O problema carioca da criminalidade é tarefa do governador Sérgio Cabral. Ele é estreante na função, e diz a sabedoria popular que quem não tem competência não se estabelece.

mockup