O que há por trás do sucesso na escola
Magno de Aguiar Maranhão
É preciso toda uma comunidade para educar uma criança. A afirmação é antiga, mas a preocupação com a influência da família e seu modo de vida no desempenho escolar é recente. O tema, inicialmente levantado em escolas particulares, adeptas de métodos educacionais inovadores que levam em conta problemas individuais dos alunos, agora é discutido na rede pública. Afinal, percebemos que todo o esforço e verbas gastos atualmente nas reformas do ensino, visando à formação de indivíduos com base cultural sólida, conscientes de suas responsabilidades sociais, podem não ter o esperado retorno. Motivo: apatia por parte dos pais e um pessimismo generalizado estão minando a autoconfiança de crianças jovens, impedindo-os de explorar seu potencial e responder com sucesso aos desafios da escola.
A visão da escola como ponto de convergência de todos os envolvidos na educação – docentes, pais, membros da comunidade etc. – ainda não é dominante em nossa sociedade. A formação do aluno se dá, em essência, fora das salas de aula. Comportamento e conceitos apreendidos em casa, nas ruas e na TV se cristalizam e afetam o aprendizado, muitas vezes contradizendo valores que a escola transmite. Esta, por sua vez, mantém uma atitude de laissez-faire que contribuiu bastante para o profundo descrédito que a atual geração de estudantes alimenta em relação ao futuro, como prova recente pesquisa do Unicef/Time Research em 20 países da América Latina e Caribe.
Em pessimismo, só perdemos para a Colômbia: 69% dos jovens crêem que as condições de vida no Brasil serão iguais ou piores daqui a alguns anos. A melhoria, dizem, depende do esforço individual (o que reflete a histórica falta de organização social do povo) e não da mobilização conjunta. Para o Unicef, eles absorveram a opinião dos adultos com que convivem. Difícil, portanto, pensar em ‘‘educação para a cidadania’’, como mandam as novas diretrizes para a educação básica, se o comportamento do aluno se assenta sobre a velha certeza nacional de que ‘‘não adianta fazer nada, porque nada dá certo’’.
Pesquisa realizada com 315.960 estudantes que participaram do último Exame Nacional do Ensino Médio revelou quadro semelhante: 57% afirmaram que a situação não vai melhorar ou está piorando. Questões sociais, como violência, despertam seu interesse, mas por fazerem parte de seu dia-a-dia. Porém, a maioria nunca pensou em atuar em grêmios ou associações a fim de ajudar a resolver tais questões.
O sistema de ensino não contribui para transformar a mentalidade da nova geração. As crianças crescem sem noção sequer de como reivindicar aos órgãos competentes seus direitos, pois nem escola nem família informaram que batalhar por eles pode dar resultado. As famílias de baixa renda entregam seus filhos à escola para que esta lhes ensine tudo o que devem saber. Não há colaboração fundamental dos pais para que o processo ensino-aprendizarem seja bem sucedido.
Difícil esperar entusiasmo pela escola sem que a família se envolva no processo. Por maior que seja o empenho do professor em formar cidadãos participativos e competentes, ele se anula se o aluno não tem como compartilhar o que aprende. Educadores apontam entre as causas do fracasso escolar a baixa auto-estima; abalos emocionais; ausência de rotina; distúrbios neurológicos e falta de estímulo em casa – quanto menor a escolaridade e renda dos pais, menos incentivo os filhos recebem para estudar e buscar informações.
A maior parte desses itens afeta milhões de crianças brasileiras. Em 28% dos domicílios mais pobres do País estão 45% de crianças com menos de 14 anos, e 25% dos jovens entre 15 e 19 anos vivem com um salário mínimo. Conscientizar a classe média de sua co-responsabilidade no desempenho escolar dos filhos é fácil. Mas, como conseguir isso de tantas famílias que vivem em luta feroz para preencher necessidades básicas de alimentação e moradia?
A iniciativa de romper o círculo ‘‘falta de estímulo – desempenho fraco – baixa escolaridade’’ tem que partir da escola. Se comunidade e pais falham ao educar crianças, que por isso respondem mal a exigências escolares, é porque não sabem como fazê-lo. E de que maneira convencer pais preocupados com a fome e o desemprego a gastarem tempo com ‘‘minúcias’’ como estimular o desenvolvimento cognitivo dos filhos e conversar com eles sobre expectativas para o futuro?
As escolas devem responder a essa pergunta. Afinal, também é sua missão orientar as famílias nos cuidados com os filhos, promover a integração delas à escola e participar da vida da comunidade. Ou se faz isso, ou os resultados das reformas educacionais em curso ficarão bem aquém do mínimo necessário num país marcado pela pobreza, e pelo pessimismo, onde a primeira e maior lição que as crianças recebem da sociedade continua sendo, infelizmente, ‘‘salve-se quem puder’’.
- MAGNO DE AGUIAR MARANHÃO é diretor-geral da Associação de Ensino Superior do Rio de Janeiro (AESRJ)

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