O que fazer do nosso litoral?
Nicolau Imthon KluppelEsta é uma pergunta que deverá ser feita à totalidade da população do Paraná, incluindo desde o humilde pescador, que vive da pesca artesanal, até o megainvestidor que constrói os espigões junto à orla marítima. É humanamente impossível estabelecer ações definitivas em nosso litoral sem que haja uma definição clara do que a comunidade deseja para as nossas praias.
Algumas correntes pretendem que a região seja um santuário ecológico onde tudo deverá ser preservado. Outras, onde se situam os especuladores imobiliários, defendem o uso indiscriminado de áreas, sem qualquer respeito às características locais.
Os mais conservadores gostariam de implantar marinas particulares restritas ao uso de amigos importantes e que o restante da área, constituída de baías, rios e mangues, permanecesse intocável para garantir a pesca esportiva e o exibicionismo de seus filhos em jet-skis e demais modalidades de esportes náuticos. Algumas pessoas ainda entendem que as áreas com características especiais, como a Ilha do Mel, Superagui e outras regiões de paisagens magníficas, sirvam apenas aos seus interesses, impossibilitando, a propósito de conservação da natureza, qualquer investimento de maior porte destinado ao turismo.
Parte da população, constituída dos moradores locais e veranistas do interior do Estado, gostariam de ter um litoral em condições satisfatórias para morar ou usufruir do mar como lazer, nos períodos de férias ou nos fins de semana.
Os comerciantes querem ocupar toda a faixa de praia propriamente dita, instalando provisoriamente restaurantes, bares, quiosques para a exploração durante a temporada. Existem também aqueles que defendem as ‘‘avenidas atlânticas’’, devidamente pavimentadas, mesmo que para isso sejam eliminadas as dunas de equilíbrio, destruindo a praia para em seguida, exigir a construção de muros de contenção, transbordando a faixa litorânea de areia em áreas degradadas pelas ressacas. Afinal, é possível atender a gregos e troianos?
Sim, desde que se estabeleça um planejamento integrado que contemple todos os itens mencionados com a exceção do primeiro que seria a transformação total em ‘‘santuário ecológico’’. Neste caso, se assim a coletividade optar, basta abandonar toda a faixa litorânea e deixar a natureza consumir toda a infra-estrutura existente e, a região, em alguns anos, será o habitat ideal para a proliferação de mosquitos.
Mas, deixando de lado a ironia, podemos afirmar que é possível desenvolver o nosso litoral dentro de conceitos modernos de urbanismo, onde o homem poderá desfrutar da paisagem, morar bem, pescar à vontade e ter a qualidade de vida ideal, como ocorre em outras regiões, onde o turismo é, sem dúvida, a principal fonte de renda.
Assim, se o objetivo for o de um desenvolvimento harmônico, devemos estabelecer prioridades nas ações consideradas importantes, como rodovias, energia elétrica, planos de uso e ocupação do solo e legislação adequada. Mas existem ‘‘ações fundamentais’’ as quais, se não forem contempladas, todo e qualquer plano estará fatalmente condenado.
Em nosso entender, o fundamental é o saneamento geral, que engloba: abastecimento de água, coleta e tratamento de esgotos sanitários, sistemas de macro e microdrenagem, coleta e destino final de resíduos sólidos.
O abastecimento de água, a coleta e o tratamento de esgoto sanitário que constituem o saneamento básico, assim como a solução para o lixo, poderão ser objeto de concessão para as empresas do ramo. No tocante à macro e microdrenagem, a tarefa cabe diretamente ao poder público, devido à complexidade na implantação e na sua manutenção.
No planejamento urbano ou regional, a macrodrenagem é, sem dúvida, a parte mais fundamental, no caso específico do nosso litoral, pois o alto índice pluviométrico de 2.500 milímetros anuais (sendo que nos meses de verão, época de temporada, a precipitação mensal é da ordem de 300 milímetros) condicionado ainda às baixas declividades, obriga-nos a implantar canais de grande porte, de modo a evitar que as áreas já urbanizadas sofram com inundações frequentes, que além de prejuízos materiais podem trazer as enfermidades de origem hídrica como malária, leptospirose, cólera e outros males.
Diante disso é que defendemos o estabelecimento de um Plano Diretor de Macrodrenagem para toda a faixa continental, de modo a permitir também o ordenamento do uso e da ocupação do solo, onde seja possível garantir não somente o desenvolvimento para as diversas atividades humanas, como também poder estabelecer normas de proteção e preservação de áreas de interesse ecológico.
Tecnologia e experiência para isso nós já dispomos. Em Curitiba, por exemplo, transformamos áreas degradadas em locais de interesse turístico como os parques Barigui, Tingui, Tanguá, Jardim Zoológico do Parque Iguaçu e as pedreiras, entre outros, onde recriamos a paisagem. Basta apenas a vontade política de transformar o nosso pequeno litoral numa região onde seja possível habitar, desenvolver o turismo, preservar a paisagem e garantir uma boa qualidade de vida.
- NICOLAU IMTHON KLÜPPEL é presidente da Superintendência de Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental do Paraná (Sudersha)

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