As eleições deste ano estão demonstrando, com uma clareza ímpar, a falência da estrutura política vigente. Com razão, tem-se afirmado que uma das primeiras tarefas da agenda política da próxima legislatura será uma profunda reforma partidária. O quadro que hoje se nos apresenta é o retrato de uma história que se renova nos mesmos vícios. É contra essa reiteração do erro que Sílvio Romero bradava, ao escrever: ‘‘Aos que exerceram o monopólio de nos governar em nome do direito divino dos reis, sucederam os que exercem o mesmo monopólio em nome da esperteza, da audácia, da mentira, da corrupção. Contra esses é que é preciso bater, bater, bater, no intuito de desbravar o caminho dos tropeços que o entulham’’.
Partidos sem fisionomia, alianças fundadas em interesses fisiológicos, candidatos sem qualquer tipo de compromisso concreto a não ser com generalidades, uso despudorado tanto da máquina governamental quanto do poder econômico. O exemplo mais eloquente da total descaracterização de nosso sistema partidário são os out doors de São Paulo, nos quais o presidente FHC aparece apoiado (ou apoiando?) por dois candidatos irremediavelmente opostos tanto por sua história, quanto por sua prática política e administrativa, sem falar de sua visão ideológica. Aqui é um partido ‘‘de esquerda’’ apoiando candidato de ‘‘direita’’; lá é candidato que passou por uma centena de partidos falando em ‘‘coerência’’; mais adiante, brotam conflitos regionais de partidos aliados nacionalmente. Enfim, uma grande ‘‘salada’’ de siglas, que sequer merece o apelativo de ‘‘ideológica’’.
Não há dúvida de que grande parte dessa disformidade política tem suas raízes em nossa herança colonial. Desde o início, está a onipresença do controle ideológico da Coroa, de tal modo que se pode falar em pré-existência da administração à organização social. Oliveira Vianna, referindo-se à organização política das feitoriais ou arraiais, diz: ‘‘Nasce-lhes a população já debaixo das prescrições administrativas (...) Essa organização administrativa e política ... é uma espécie de carapaça, disforme, vinda de fora, importada’’.
A vinda da família real nada muda. À parte alguns decretos aparentemente progressistas, no mais, como afirma Faoro, tudo não passa de ‘‘renovamentos das supérfluas velharias de uma sociedade desfibrada’’. É a permanente ‘‘ausência’’ da população em todos os momentos da vida nacional que caracteriza nossa história. Daí a completa inexistência de controle social sobre qualquer instância de poder. Até as agitações que abalaram o Império faziam-se apartadas da massa, a ponto de Saint-Hilaire, em viagem pelo País, assinalar que, com relação a elas, ‘‘a massa do povo ficou indiferente a tudo’’.
A República não mudou muito esse panorama. Ao contrário, afirmou a predileção dos governantes pela ‘‘posição de sentido’’ diante de suas ordens, tratando as instituições como instrumentos para a manutenção do povo como súdito, oscilando sempre entre o pulso forte dos militares e a política de conciliações das oligarquias.
Hoje, é possível que tenhamos chegado a um ponto crucial: ou operamos uma profunda mudança de nossa estrutura política, ou corremos o perigo de corroermos as bases da confiança da sociedade na democracia e nas instituições republicanas. Como garantir pleno estado democrático de direito quando a representação da Câmara Federal distorce o princípio de que a cada cidadão deve corresponder um voto? Não será a hora de repensar quocientes eleitorais, restabelecer a fidelidade partidária, criar mecanismos mais exigentes para a existência de partidos, implantar o voto distrital a fim de diminuir o peso dos ‘‘trens pagadores’’, rediscutir a possibilidade da reeleição no cargo, e assim por diante?
Continuar como está é que não é possível. O que se vê, na vida política, não é o viço da democracia e da justiça, mas a burla, o engodo, a mentira se institucionalizando e ganhando foros de verdade, construindo-se um Estado por poucos e para poucos, excluindo a imensa maioria de qualquer lasquinha de cidadania. Por enquanto, só podemos dar razão ao desabafo de Euclides da Cunha, quando escrevia (em 1909): ‘‘Tu não imaginas como andam propícios os tempos a todas as mediocridades. Estamos no período hilariante dos grandes homens-pulhas, dos Pachecos empavesados e dos Acácios triunfantes. Nunca se berrou tão convictamente tanta asneira sob o sol. É asfixiante. A atmosfera moral é magnífica para batráquios. Mas apaga o homem...’’

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