O que está havendo?
O problema do futebol brasileiro é um só: ter-se tornado um negócio bilionário. Isso criou um imenso problema: para as empresas, para os clubes, para os dirigentes, para os jogadores, para a imprensa, para o povo.
Para as empresas. Dentro da chamada mídia alternativa, o mundo do entretenimento passou a ser um dos maiores negócios do mundo, em que se investem bilhões, com retorno quase sempre assegurado. Nesse mundo, o esporte é um dos carros-chefes, atraindo naturalmente as atenções de bilhões de pessoas - sobretudo através dos meios de comunicação. Entre os esportes, o futebol é o número 1 na maioria dos países.
Para os clubes. Como nasceu dentro da estrutura clubística - diversamente do que ocorre com a Fórmula 1, a NBA ou o Tênis - o futebol, em especial no Brasil, padece de ser (ou não ser) administrado por um tipo de organização amadora, mais adequada a uma instituição religiosa, ou ONG, do que um empreendimento comercial. Normalmente, um clube de primeira linha - que inclua o futebol profissional entre suas atividades - administra salões de festas, bares, piscinas, escolinhas, esportes amadores (de verdade) dentro de uma verba minúscula em comparação com as fábulas de dinheiro que circulam na área do futebol.
Para os dirigentes. Porque essas pessoas - no Brasil chamadas de cartolas - sempre exerceram seus cargos por vaidade ou paixão, adotando uma atitude patrimonialista em relação aos clubes que, em outras eras mais risonhas, refletia-se no fato de que, muitas vezes, usavam o próprio dinheiro para comprar um craque ou fazer uma benfeitoria na sede. Hoje, uma simples comissão - por dentro ou por fora - na compra ou na venda de um jogador significa independência financeira para si, para sua família e quase todos os correligionários.
Para os jogadores. Sem querer ser elitista, olhe para o boy da sua empresa. Moço de origem humilde, 19 anos, com curso secundário incompleto, pertence à classe D, nas classificações socioeconômicas dos institutos de pesquisa. Se continuar trabalhador e esforçado, chegará a um cargo de chefia ou montará seu próprio negócio, quando tiver 40 anos. Imagine-o, agora, presidente da sua empresa - agora - com um salário de 50 mil reais por mês. Difícil de imaginar, não é? Agora, dobre. Ou melhor, sextuplique, para chegar ao salário de um jogador apenas competente, em um time brasileiro como Flamengo ou Palmeiras. Porque os Rivaldos e Zidanes chegam a ganhar um salário igual ao do seu presidente por dia. Só que a estrutura mental e psicológica desses jovens escolhidos pela deusa fortuna é exatamente igual à do boy. E não há muito o que fazer.
Vale falar mais um pouco sobre os jogadores brasileiros. Os montantes incalculáveis que chegam a valer, no mercado, originam-se, primariamente, dos patrocinadores e dos clubes. O que vem da Seleção - como remuneração ou bicho - não chega a ter a dimensão de uma gorjeta. Como se empenhar, numa partida contra Honduras ou Austrália, num torneio secundário? Como entrar naquela bola dividida e arriscar que lhe aconteça o que aconteceu com Ronaldo (e ele estava disputando uma partida pela Inter)? E como conciliar isso - mental e emocionalmente - com a expectativa e a avaliação, sempre presente, de milhões - bilhões - de pessoas?
Para a imprensa. Veículos de comunicação, como se sabe, têm sua principal fonte de receita nas verbas de publicidade de grandes anunciantes como Adidas, Ambev ou Parmalat. As negociações de patrocínios - como mostra a evolução dos números da FIFA, de milhões, há uma década, para bilhões, hoje - representam negócios de muito dinheiro. O que fazer, então, quando morre um Ayrton Senna no pique da popularidade e não há brasileiros para substituí-lo como ator nos espetáculos de audiências necessariamente grandes e de grande poder aquisitivo? Ou para comprar o patrocínio de uma Copa do Mundo em que o Brasil seja eliminado na primeira fase, ou - pior - não se consiga sequer se classificar? Uma parte disso explica o falso entusiasmo dos narradores, a descrição de bisonhas partidas regionais como se fossem de grandes campeonatos, a cantilena do vai melhorar, ainda temos confiança...
Para o povo brasileiro, a mistura dos ingredientes acima resultou em terrível suspeita e frustração coletiva: será que vamos perder a Seleção - única alegria que nos restava - nesse vale sombrio de lágrimas em que se está tornando o Brasil?
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é jornalista, publicitário, professor e dirigente universitário no Rio de Janeiro





