O que esperamos de 1998
‘‘Eis que estou à porta, e bato: se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com você cearei, e ele comigo. (Apocalipse 3:20)
Padre Roque
A menor F.M.F, 5 anos, é uma criança como tantas outras da sua idade. Menina exigente, encomendou com bastante antecedência seu pedido junto ao Papai Noel: queria ganhar uma casa de bonecas. Não uma casa de bonecas qualquer, porém. F. queria uma casa grande e bonita, com direito até a uma cozinha completa e a um simpático quarto de bebê. O que mais me surpreende em F., porém, é a sua esperteza. Perguntada sobre as razões que a levaram a fazer tantas exigências neste Natal, a menina respondeu, simplesmente: ‘‘Como vou brincar de ‘mamãe’ se não tiver tudo isso?’
F. existe de fato. Mora em um pequeno apartamento financiado pela Cohab/PR (Companhia de Habitação do Paraná), localizado na periferia de uma das grandes cidades do Estado. Filha da classe média (pai funcionário público e mãe dona de casa), a menina não começou a estudar ainda porque os seus pais não têm dinheiro para matriculá-la em uma boa pré-escola privada - as públicas, dizem, andam mal das pernas. Temendo o desemprego crescente que amedronta os assalariados, estão esperando a situação melhorar para iniciar F. nos estudos. Só não sabem, dadas as incertezas que rondam a classe média, quando isto vai acontecer.
Não sei se a menina realmente ganhou uma casa de bonecas neste Natal. Levando-se em conta o preço de um brinquedo como este, imagino que não. Penso, porém, que o sonho pueril de consumo de F. simbolize muito mais que o desejo de qualquer outra criança inteligente da sua idade. É a metáfora de uma grandiosa Nação que ainda não encontrou o caminho da felicidade. A história de F. me vem à mente por ocasião da chegada do Ano Novo - o penúltimo antes do espocar do tão esperado terceiro milênio.
Mesmo considerando os avanços que tivemos nos últimos anos, fico pensando nos enormes desafios que ainda temos de enfrentar para romper a fome e a miséria se quisermos pertencer ao seleto grupo de nações desenvolvidas deste mundo. Fico pensando na longa trilha da justiça social que teremos de percorrer até podermos nos considerar uma Nação efetivamente igualitária e democrática. O Brasil é uma criança em busca de identidade e da conquista dos seus direitos mais elementares. É uma nação em busca da cidadania.
Implacáveis, os números falam por si mesmos. A distribuição de renda proporcionada pelo Plano Real não conseguiu retirar os mais de 30 milhões de miseráveis brasileiros da fome e do abandono. O desenvolvimento econômico gerado pelo plano não foi suficiente para trazer de volta ao mercado de trabalho os mais de 6 milhões de desempregados do Brasil. A estabilização da moeda não conseguiu reduzir a insegurança dos 10 milhões de habitantes que não têm um teto para viver. A queda das taxas de inflação não bastou para garantir salários aos trabalhadores brasileiros capazes de lhes garantir, e a toda sua família, saúde e educação de qualidade.
Não creio ser necessário ir muito além em minhas considerações para lembrar da gravidade das nossas mazelas sociais. Exatamente por ter consciência de que a grande maioria dos brasileiros conhece estes problemas de perto, seja porque a realidade lhes salta aos olhos ou simplesmente porque são protagonistas da história, só nos resta desejar que tudo seja diferente em 98. Que a Nação se conscientize da importância de exigir seus direitos, sobretudo no ano em que terá a possibilidade de dar sua resposta nas urnas aos que não têm compromisso com a maioria da sociedade.
Que as nossas autoridades públicas se empenhem mais para garantir, por meio da valorização dos setores sociais, o padrão de qualidade de vida com o qual todos os brasileiros sonham. Que os céus se iluminem neste País, enfim, tornando nossa sociedade mais justa e humana. Ainda há tempo para fazermos do Brasil a Nação justa e fraterna que todos queremos. Só depende, exclusivamente, de nós.
- PADRE ROQUE é deputado federal (PT-PR) e professor licenciado do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Ponta Grossa

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