O que esperamos da escola - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de fevereiro de 1999
Walmor Maccarini 
No último artigo demonstrei que a escola tem ensinado o desperdício, ao determinar o encapamento dos cadernos (uma inutilidade); que a primeira folha (frente e verso) não seja utilizada, alguns exigindo que nas seguintes só se escreva na parte frontal e não no anverso; que seja mantida aquela margem à esquerda, onde é proibido escrever; que lápis de cor tem que ser longo; que o maço de papel sulfite tenha que ser de 200 a até 500 folhas, alguns não aceitando o de 100, afora aquela infinidade de badulaques exigidos a cada início de ano escolar e no decorrer. Para desespero dos pais. Certos professores exigem que a calça de malha tenha o emblema da escola, e com esta griffe o custo sobe para R$ 15, quando é de apenas R$ 5 nas lojas populares, qualidade idêntica.
Outros absurdos: o ensino secundário não prepara o aluno para o curso superior, pois exige-se dele esse inexplicável vestibular, caça-níquel inventado para beneficiar donos de cursinhos. O ingresso no nível superior deveria ser uma sequência natural. Se o estudante passou no último ano do curso secundário, então está apto para a faculdade. E por que, mesmo tendo passado com brilhantismo no secundário, pode eventualmente não passar no vestibular? Por que isto acontece se ele não mudou de identidade, de situação, nem de pátria? O vestibular é, por todas as formas, uma aberração (ou seria uma violentação), porque não dá suporte algum para o que o aluno vier a estudar no nível superior. É, antes, um fragmentador de famílias, porque em grande número de casos o jovem daqui passa em outra cidade e muda-se para lá, e o de lá muda-se para cá. Se é um exame selecionador, pela insuficiência de vagas, então que se faça salas maiores e se compre mais cadeiras... Vaga escolar não é nada mais que espaço e cadeiras. O mais é conversa acadêmica. Que se faça escolas do tamanho de estádios! Professor que fala para um cento fala para um milhar. Não é uma meta nacional dar escola para todos?! Ademais, ensinar o que se ensina está no livros e nem haveria necessidade de frequência à escola. Bastaria o aluno estudar em casa e prestar exames. Absurdo? Nos Estados Unidos já existe a universidade por internet e a Alemanha já prepara a sua.
E se são tão bons os cursos superiores, por que a Ordem dos Avogados, por exemplo, impõe ao formando um novo exame? Estágios, residências, pós-graduações, tudo bem, porque a esta altura o profissional já está no exercício da profissão, buscando a prática. Mas sem o exame da Ordem diploma de advogado não vale nada. Inexplicável.
Mas, como se vê, se a escola regulamental não prepara plenamente a pessoa nem para uma profissão, muito menos a prepara para as relações da vida. Enche o homem de conhecimentos mas não lhe ensina a sabedoria. Forma um intelectual e não forma um sábio. Não o ensina a ser responsável diante da vida e nem diante dele próprio.
A escola é em grande parte a responsável por este homem trôpego que chega ao terceiro milênio desencontrado consigo mesmo e que nem sabe por que veio ao mundo.
Espera-se da escola que gere um homem novo, liberto, que aprenda a amar a si próprio para poder amar seus semelhantes. Que implante os alicerces de uma nova sociedade, onde impere a harmonia entre todos.
O terceiro milênio não será melhor se a escola não começar a ensinar a pessoa a ser mais competente, menos competitiva e mais solidária. Incumbe à escola, primordialmente, ensinar ao homem semear riqueza e não apenas acumulá-la, porque essa riqueza terá que ser para todos. Se a escola produzir o homem sábio e não o estrategista competidor, tudo o mais ele aprenderá por acréscimo, e tudo o que aprender executará bem.
Se jogamos tanta responsabilidade sobre a escola é porque ela tem passado ensinamentos de competição, quando os mestres nos diziam que tínhamos que aprender porque o mundo lá fora era perverso e de confronto, onde vencia o mais forte, mas sem explicar o conceito de forte, deixando supor que venciam os mais espertos e que soubessem dar a melhor rasteira... Esses ensinamentos, as crianças, hoje pais, receberam e foram sucessivamente passando para os filhos. Muitos dos quais transformaram-se em professores... O círculo continuou. Porque hoje também a família incute nos jovens a idéia de que o mundo é de competição, de concorrência.
O que somos é a sucessão do que nos ensinaram.
Já escrevemos que o terceiro milênio não será apenas o dos saltos gigantes da tecnologia, mas será também o da oportunidade para o grande avanço quântico da raça humana no rumo de sua redenção, do enriquecimentos material e espiritual, da plena libertação de antigos vícios e egos.
A escola convencional tem que rever seu modelo, voltando-se para ideais como produzir um novo cidadão, consciente e feliz. Ao invés do acúmulo de conhecimentos e do excesso de carga informativa, ensinar-lhe a auto-responsabilidade, a conscientização de seu papel diante da vida. Ao invés da competição, a solidariedade. O mundo já experimentou todas as fórmulas, só ainda não experimentou esta.
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina


