O QUE ERA CHAMADO DE FÚTIL VIROU ÚTIL
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sábado, 29 de março de 2003
Fábio Galão<BR>Reportagem Local 
Imagine a cena: um grupo de adolescentes bem vestidos espera num ponto, em frente a uma praça, pelo ônibus que leva à escola. De repente, os jovens ouvem o sinalzinho estridente e todos abrem as mochilas, apressados, para verificar se é o seu celular que está tocando. Para seu espanto, eles olham para trás e é o faxineiro da praça quem atende e começa a falar, em seu próprio aparelho.
Entrevistado pela Folha, Valcuruci Jorge dos Santos, 40 anos, que além de trabalhar como faxineiro de uma empresa terceirizada também atua como catador de papel, não contou ao repórter nenhuma história assim, mas certamente deve ter vivido situação parecida. ''O celular é totalmente necessário pra mim. Comprei o meu há um ano, quando eu já realizava um trabalho de caridade. Meu dia é muito apurado, e o celular ajuda as pessoas a me encontrarem'', explica Valcuruci.
Ele comprou o seu aparelho em uma única parcela, por R$ 240, quantia que consumiu boa parte de seu salário na época - R$ 320 como faxineiro de Frente de Trabalho. ''Não quis parcelar, não. Passei o resto do mês com ajuda, cestas básicas, do pessoal da igreja do meu bairro (Jardim Marabá, na zona leste). Todo o dinheiro que ganho como catador de papel, meu serviço à tarde, vai para as pessoas que eu ajudo. Dou comida, roupa'', diz Valcuruci.
Poucos meses depois de ter comprado o celular, Valcuruci perdeu o emprego na Frente de Trabalho. Mesmo assim, continuou destinando os rendimentos como catador de papel para seu projeto e vivendo de ajuda. Mesmo com tantas dificuldades, não se livrou do celular. ''Eu não gasto muito, só recebo ligações, raramente telefono. Gasto um cartão de R$ 30 a cada um mês e meio. Agora mesmo está me faltando dinheiro pra comprar outro'', diz o faxineiro.
Com os R$ 240 do novo emprego, Valcuruci sustenta a mãe e um sobrinho. ''Preciso do celular para que quem deseja colaborar com meu projeto possa me achar com facilidade. Nos fins de semana, faço bicos de carpinagem e roçagem, e com o telefone fica mais fácil agendar o serviço'', justifica Valcuruci.
O espanto dos hipotéticos adolescentes do ponto de ônibus é justificado pelo senso comum: celular é caro, coisa de quem pode ter, de gente rica. Mas o barateamento do aparelho, propiciado por uma série de mudanças no mercado (veja box), permitiu que, já há algum tempo, o celular deixasse de ser identificado como acessório da elite.
Os números comprovam esta realidade. Segundo relatório divulgado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) em fevereiro, em 1998 o Brasil tinha 7,4 milhões de clientes da telefonia móvel. Hoje, este número é quase cinco vezes maior, 35,2 milhões de celulares. Em Londrina, embora as duas empresas de telefonia celular que atuam na cidade não divulguem números exatos por razões estratégicas, especialistas estimam que o número de clientes tenha subido de quase 30 mil em 1998 (ano da abertura da concorrência no município) para mais de 150 mil.
Identificado com o mero exibicionismo ou com a vida atribulada dos profissionais liberais endinheirados, o celular hoje é considerado ferramenta indispensável para trabalhadores em funções que não geram grandes dividendos. Na casa da diarista Lucinéia Andrade, tanto ela quanto o marido, que ganha a vida como servente de pedreiro, possuem seu próprio aparelho.
''Comprei o celular em sete parcelas, há mais de um ano, quando eu ainda trabalhava como doméstica em uma casa. Minha menina de três anos e meio ficava na creche e meu menino de oito anos ia para a escola pela manhã e à tarde ficava em casa. O celular era um modo dele entrar em contato comigo'', explica Lucinéia. Desempregada há seis meses, ela reclama que está difícil arranjar bicos como diarista. ''Quando consigo alguma coisa, o celular facilita, pois quem quer meu serviço me liga diretamente'', diz Lucinéia.
Ela conta que outra vantagem é que, com o consumo de R$ 20 de créditos por mês, as despesas com os dois celulares ficam mais baratas do que os custos de um telefone fixo. ''O preço até se equiparava quando compramos os celulares, mas depois os impulsos ficaram caros demais, aí tiramos o fixo. Sempre falamos o mínimo necessário, não ligamos pra fora nem ficamos batendo papo'', ensina.
A recicladora Verônica Cardoso Costa, renda mensal de R$ 300, conta que ela mesma tinha vergonha de usar celular quando comprou o aparelho, há três anos. ''Eu achava meio constrangedor, uma catadora de plástico, usando celular. Mas hoje ele é uma ferramenta de trabalho. Todo mundo pode usar'', diz ela, que aproveita para lembrar que muitos de seus colegas de profissão também têm celulares.
Verônica conta que o aparelho é importante desde que ela assumiu a presidência da Central de Pesagem e Vendas (Cepeve), cooperativa de catadores de material reciclável que congrega 24 organizações não-governamentais em toda a cidade e 350 trabalhadores. ''No começo do ano, participei do Encontro de Catadores de Papel da América Latina, em Caxias do Sul (RS), e muita gente me ligou, fiz contatos importantes. Em Londrina, estou num lugar diferente a cada hora'', diz ela, adepta da tese da economia total.
''Passo até 90 dias com R$ 20 de crédito e só carrego quando sou alertada pela operadora'', conta Verônica. Ela confessa: ''Sem o celular, me sinto sem roupa''.


