Tarcisio VanderlindeO que
ensinar?
É possível que seja esta talvez a questão mais crucial que se abate sobre os educadores, tendo em vista a crescente e alucinante transformação do mundo contemporâneo e as demandas por ele impostas.
O currículo escolar, com algumas variações e adaptações de um país para outro, foi inventado na Escócia por volta de 1584, não sofrendo mudanças estruturais desde então. Antes disso, as escolas se caracterizavam quase como um centro de lazer, onde o aluno ia quando quisesse ou seus pais mandassem, não havendo diferenças de idade, divisão por classes nem saber sistematizado e organizado.
Defendendo a perspectiva culturalista no currículo escolar, o educador Alfredo Veiga Neto, da UFRGS, informa que isto se constitui no conjunto de conteúdos e métodos de ensino, de tudo que chega à escola, muito mais portanto do que uma simples grade de nomes de disciplinas e envolvendo ainda a crucial questão: ‘‘O que ensinar?
A perspectiva culturalista estaria se preocupando preferentemente com o que ensinar, o que seria relevante trazer para a escola, uma vez que o como ensinar teria se constituído, na ótica do educador citado, um grande problema epistemológico que a base culturalista estaria deslocando agora para ‘‘o que ensinar’’. Além disso, essa base epistemológica busca a genealogia do currículo, como surgiu a idéia do saber universal e como acabou se incorporando à forma que acaba não tendo muitos questionamentos, o que dificulta respostas a perguntas sobre a validade de se ensinar determinados conteúdos.
Numa fase que não é mais, mas que também ainda não é, o grande problema para os culturalistas é o que se vai ensinar diante de um suposto esgotamento, segundo eles, dos pressupostos tanto marxistas como liberais. Neste contexto, necessitar-se-ia questionar, por exemplo, quando se fala em educação com qualidade, que qualidade seria esta? De qual lógica esta qualidade estaria a serviço?
Uma coisa os culturalistas deixam bem claro. Que, na sua perspectiva, se prevê a construção de novos sujeitos, respeitando-se as heterogeneidades sociais, culturais e religiosas, contrapondo-se à fundamentação sócio-econômica presente em nosso quotidiano onde funciona a lógica de Malthus, quotidiano em que se procura passar a idéia de que somos desiguais, o que leva a um última etapa, que é a exclusão. Um conhecido slogan, muito utilizado em recente campanha política, tem resumido muito bem esta questão: ‘‘vencer ou vencer’’.
Os culturalistas defendem que é preciso haver, na escola, neste período de transição, pequenas ‘‘revoltas’’ diárias. É preciso estar atento e questionar o que vem escondido em ícones como ‘‘qualidade’’, ‘‘otimização’’, enfim, faz-se necessário implantar uma ‘‘Pedagogia da Desconfiança’’.
Além disso e, considerando a sintomática crise e o esgotamento do modelo neoliberal, a escola nos próximos anos inevitavelmente irá se preocupar, além das condições de trabalho do professor e das políticas educacionais, com o que ensinar e como trabalhar na enorme diversidade sócio-cultural emergente, dentro e fora dela. Isto parece ser um dos fundamentos da visão culturalista na educação, onde o ponto de partida não é mais o conhecimento universal, herança do velho currículo, mas a capacidade de entender a diversidade, articulando-se nela numa fase de transição. Numa fase em que já não é, que promete ser, porém que ainda não se materializou.
- TARCÍSIO VANDERLINDE é docente da Unioeste.

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