O que é problema político? - Joel Samways Neto
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de janeiro de 1998
Joel Samways Neto 
Semana passada, na quinta-feira, o senador pelo PMDB do Paraná, Roberto Requião, denunciou, no plenário do Senado Federal, através da gravação de uma conversa telefônica, que existe corrupção no governo. A conversa era entre o irmão do senador, o deputado federal pelo PMDB do Paraná, Maurício Requião, e o chefe de gabinete - interino - do Ministério da Saúde, e versava a respeito da liberação das emendas orçamentárias apresentadas pelos irmãos Requião.
Quem leu a íntegra do referido diálogo, em matéria divulgada pela Agência Estado, publicada nesta Folha (p.4), deve ter notado o seguinte: o deputado falou longamente sobre sua jornada intensa para acompanhar a liberação dos recursos, e que ele já sabia que a parte técnica estava resolvida, e que agora faltava uma conversa com o próprio ministro. O deputado acrescentou: O próprio ministro estaria talvez disposto até a ligar para mim para que eu resolvesse alguma coisa que ela (a secretária dra. Iza) não me disse exatamente o que é.
O tal chefe de gabinete interino pediu cinco minutos para verificar o assunto. Ao retornar a ligação, ele disse ao deputado: O senhor tem que conversar com o Luiz Carlos Santos, da articulação política, porque a informação que a gente tem aqui é que tem um problema político lá no Palácio do Planalto (destaquei). O deputado, a seu turno, reclamou que o Orçamento da União, aprovado pelo Congresso Nacional, não poderia estar sujeito a ingerências políticas.
O tal chefe de gabinete interino alegou que cumpria ordens ministeriais, e que o deputado deveria conversar com o ministro Luiz Carlos Santos ou com seu chefe de gabinete. Daí o deputado disse que não iria se sujeitar a esse tipo de injunção, e terminou a conversa com um discurso sobre o ideário do partido tucano.
Li a matéria em três jornais. Dois deles davam conta de que o senador dissera, ao apresentar a malsinada gravação, que o fato comprova a corrupção no governo e um mercado de emendas e de votos. Para um outro, a Folha de S.Paulo (que, aliás, não fez da notícia uma chamada de primeira página), o senador dissera que a gravação comprova a perseguição política do governo a parlamentares do PMDB.
Perseguição política, corrupção no governo, mercado de emendas e de votos, esses são os significados da frase problema político? A interpretação é livre, claro. Os irmãos Requião, pelo jeito, entendem que problema político é sinônimo de corrupção. Curioso. Quando o irmão Roberto era governador sub judice do Paraná, os prefeitos faziam quase uma fila no Palácio Iguaçu para tratar de liberação de recursos. Obviamente, não tratavam de problemas políticos, mas, quem sabe, de gratidão eterna (eterna, infinita, enquanto durasse o vínculo com o poder - ou, ao menos, até a próxima campanha eleitoral).
Engraçado ver essa expectativa de alguns parlamentares, imaginando que leis autorizadas ou leis programáticas não seriam isonomia, pensando única e exclusivamente na sociedade em geral? Haverá quem, nessas condições, pudesse interpretar uma obstrução parlamentar, contra um projeto de interesse do Executivo, não como um problema político, mas como uma coisa da vida? Sim, talvez ou provavelmente.
O jogo da política é feito, é tramado de problemas políticos. É uma disputa de interesses - uma disputa feroz, eu diria, na qual cada parte tem seus instrumentos de luta e não abre mão deles. Nessa arena digladiam-se forças, influências, altezas e até baixezas (vide o caso Ferreirinha, a famosa fraude eleitoral de 1990). Agora, daí a ver problema político sempre como corrupção isso já é reducionismo leviano. Ver nas palavras - poucas - do chefe de gabinete interino do Ministério da Saúde uma comprovação de corrupção, perseguição, compra e venda de votos, uma tramóia do governo FHC, é beirar o ridículo. Que importa? Quando se está em plena corrida eleitoral, o ridículo também vale - desde que garanta aos protagonistas os segundos de show na TV e o espaço nos jornais.
É o estilo grêmio estudantil atacando novamente.


