É um avião? É um pássaro? É o ultraleve do Fittipaldi em vôo descendente? Não, é o super-Ciro Gomes que está voltando ao pedaço para bagunçar um pouco o coreto que vinha executando marchinhas muito comportadas e de forma mecânica - sem empolgação.
Na verdade não é propriamente Ciro Gomes, mas o que ele representa como possibilidade de mudança no quadro político. É o fator Ciro Gomes de desestabilização daquilo que já estava determinado. A saber: Fernando Henrique fatura sem problemas um segundo mandato e o PT cumpre tabela sendo derrotado, mas mantendo a dignidade da esquerda.
Foi uma mudança incrível numa rapidez fantástica. De repente descobriram que Ciro Gomes podia ser candidato por um partido que ninguém ainda sabe bem o que é, o PSB. Bastou surgir a hipótese e o rebuliço foi geral. A esquerda mais tradicional, digamos assim, ficou indignada. A direita percebendo a divisão na esquerda voltou a pensar em um candidato próprio. E o governo já deu demonstrações inequívocas que está apavorado.
Talvez seja esse o momento de maior glória de Ciro Gomes, que pode até nem se filiar ao PSB e nem sair do ninho tucano. ‘‘Mas eu não sou socialista’’, já disse o ex-ministro e ex-governador do Ceará.
Não é socialista e nem é bobo. Justamente por isso se o cavalo passar arreado ele monta. Ou existe algum político que não queira ser presidente da República, seja pelo Partido Socialista ou seja pelo Partido de Dançarinos de Chá-chá-chá?
O fator Ciro Gomes confundiu tanto o quadro que o sujeito lê o jornal e não entende mais nada. Numa página, por exemplo, aparece Leonel Brizola dizendo que pode sair para o sacrifício sendo candidato a vice na chapa de Lula. Brizola vive dando porretadas no PT. Já chamou Lula de sapo barbudo, mas agora admite engolir o sapo e ser coadjuvante numa chapa que pretende unir a esquerda. Mas a posição de Brizola não é o que espanta mais.
Outra página de jornal mostra que Brizola está sendo considerado indispensável pelos socialistas de Miguel Arraes para montar uma outra chapa que também una as esquerdas. Os socialistas querem o apoio de Brizola por causa do tempo na televisão durante a campanha. Agora, duro é saber como se vai unir as esquerdas se já existem dois candidatos para disputar o mesmo espaço: o próprio Lula e Ciro Gomes.
Enquanto isso Fernando Henrique brada a partir das páginas da revista ‘‘Veja’’ que a esquerda é ele. Isso mesmo: a única pessoa de esquerda é ele. Está lá, nas páginas da ‘‘Veja’’.
Tudo é campanha eleitoral. Os tucanos estão usando a entrevista para tentar demonstrar que a prática do governo nada tem a ver com políticas conservadoras e importadas de países desenvolvidos junto com a globalização. Aliás, essa será a tônica da campanha para a eleição do ano que vem. Os tucanos vão pregar a felicidade, mais emprego e maior atenção aos setores sociais.
Para a oposição, a entrevista de Fernando Henrique a ‘‘Veja’’, foi na verdade o exercício de um intelectual articulado construindo uma explicação racional para a sua mudança de posições. Os mais gozadores dizem que Fernando Henrique pode se dar ao luxo de usar discurso de esquerda porque tem ao lado o PFL para fazer o serviço. O resumo da ópera: as coisas estão mudando, é verdade, mas continua tudo igualzinho.

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