Em junho do ano passado, aconteceu-me uma dessas coisas raras e importantes, que servem para ampliar nossos horizontes mentais. É que fui convidada pelo Dr. Lawrence E. Harrison para participar como palestrante de um congresso internacional em São José da Costa Rica, promovido pela Universidade de Harvard e pelo INCAE de Costa Rica. Ali pude conhecer importantes intelectuais latino-americanos e, entre eles, Carlos Alberto Montaner. De pronto me interessei pelo seu livro recém-lançado pela Plaza & Janes Editores S.A., ‘‘Manual del perfecto idiota latino americano’’, escrito juntamente com Plínio Apuleyo Mendoza e Alvaro Vargas Llosa. Tive a sorte de ganhar um exemplar autografado pelo próprio Montaner e à noite, no hotel, comecei imediatamente a leitura da obra. Ao terminar a introdução de Mario Vargas Llosa e mais os dois primeiros capítulos, soube de antemão que estava diante da contribuição mais importante dos últimos tempos em termos de análise da essência latino-americana.
O livro, um best-seller internacional, foi agora traduzido no Brasil, e Montaner esteve recentemente em Curitiba para o lançamento, a convite do Instituto Liberal do Paraná. Por coincidência, achei entre meus papéis um texto do Instituto Liberal do Rio de Janeiro, de novembro de 1994, o qual é a tradução do original ‘‘Que es el liberalismo’’, publicado no volume 794 da série ‘‘Topicos de Actualidad’’ e editado pelo Centro de Estudios Economico-Sociales (CEES) da Guatemala. Neste texto, Carlos Alberto Montaner responde sobre o tema o que é o liberalismo, e pelo atual interesse que o autor e o tema despertam, creio que vale transcrever parte da entrevista:
O que é liberalismo?
O liberalismo é um modo de entender a natureza humana e uma proposta destinada a possibilitar que todos alcancem o mais alto nível de prosperidade de acordo com seu potencial (em razão de seus valores, atividades e conhecimentos), com o maior grau de liberdade possível, em uma sociedade que reduza ao mínimo os inevitáveis conflitos sociais. Ao mesmo tempo, o liberalismo se apóia em dois aspectos vitais que dão forma a seu perfil: a tolerância e a confiança na força da razão.
Em que idéias se baseia o liberalismo?
O liberalismo se baseia em quatro simples premissas básicas:
- Os liberais acreditam que o Estado foi criado para servir ao indivíduo, e não o contrário, pois os liberais consideram o exercício da liberdade individual como algo intrinsecamente bom, como uma condição insubstituível para alcançar níveis ótimos do progresso. Dentre outras, a liberdade de possuir bens (o direito à propriedade privada) parece-lhes fundamental, já que sem ela o indivíduo se encontra à merce do Estado.
- Portanto, os liberais também acreditam na responsabilidade individual, pois não pode haver liberdade sem responsabilidade. Os indivíduos são (ou deveriam ser) responsáveis por seus atos, tendo o dever de considerar as consequências de suas decisões e os direitos dos demais indivíduos.
- Justamente para regular direitos e deveres do indivíduo em relação a terceiros, os liberais acreditam no Estado de Direto. Isto é, crêem em uma sociedade governada por leis neutras, que não favoreçam pessoas, partido ou grupo algum, e que evitem de modo energético os privilégios.
- Os liberais também acreditam que a sociedade deve controlar rigorosamente as atividades dos governos e o funcionamento das instituições do Estado.
O liberalismo é uma ideologia?
Não. Os liberais têm certas idéias ratificantes pela experiência - sobre como e por que alguns povos alcançam maior grau de eficiência e desenvolvimento, ou a melhor harmonia social, mas a essência desse modo de encarar a política e a economia repousa no fato de não planejar de antemão a trajetória da sociedade, mas em liberar as forças criativas dos grupos e dos indivíduos para que estes decidam espontaneamente o curso da história. Os liberais não têm um plano que determine o destino da sociedade, e até lhes parece perigoso que os outros tenham mais planos e se arroguem o direito de decidir o caminho que todos devem seguir.
Quais são as idéias econômicas em que se baseiam os liberais?
A idéia mais marcante é a que defende o livre mercado, em lugar da planificação estatal. Já na década de 20, o filósofo austríaco Ludwig Von Mises demonstrou que nas sociedades complexas, não seria possível planejar de modo centralizado o desenvolvimento, já que o cálculo econômico seria impossível. Mises afirmou com muita precisão (contrariando as correntes socialistas e populistas da época) que qualquer tentativa de fixar artificialmente a quantidade de bens e serviços a serem produzidos, assim como os preços correspondentes, conduziria ao desabastecimento e à pobreza.
No meu próximo artigo apresentarei a segunda parte da entrevista de Montaner, certa de que o assunto contribuirá para o esclarecimento das pessoas nele interessadas.

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