Walmor Macarini
‘‘Firmamos o compromisso de modernizar o Legislativo’’ – disse em artigo neste jornal, dia 23, o presidente da Assembléia Legislativa do Paraná, deputado Nelson Justus. O que é modernizar um Legislativo? Melhorar seu quadro funcional, suas instalações físicas? Estas, certamente que não, porque a Casa dos Deputados, em Curitiba, por fora e por dentro, é moderna até demais pelos parâmetros das casas da maioria dos cidadãos. Seria a demissão dos funcionários fantasmas? Esta – afirma o deputado-presidente – já está em curso, embora ainda não se conheça o número dos demitidos.
‘‘Porque - diz ele - quem não presta serviço não presta para o serviço’’. (Êpa, aí se terá que começar pela maioria dos deputados, que são os nossos ‘‘servidores’’ mais dispendiosos, mais ausentes – em todos os sentidos – e pouco prestadores de serviço).
Certa vez, o ministro Mário Henrique Simonsen declarou que havia no Brasil 8 milhões de funcionários públicos e que, destes, metade poderia ser perfeitamente dispensada, porque além de aliviar o encargo com os salários ainda melhoraria o desempenho do serviço, pois seriam 4 milhões atrapalhando menos... Palavras dele.
Conta-se a história do leão que escapou do circo na grande cidade e escondeu-se dentro de uma casa legislativa. Cada dia ele comia um. Comia e se escondia. Às vezes era um deputado, às vezes um assessor. Só não comia funcionários-fantasmas porque lá eles não apareciam. E assim se passaram semanas, ninguém notava a ausência de ninguém, porque ninguém fazia falta. Até que um dia o leão cometeu a imprudência de comer a mulher do cafézinho...
Quando o deputado Nelson Justus diz que ‘‘poucos sabem que a Assembléia Legislativa do Paraná é uma das que menos gastam no Brasil, em comparação com as demais’’, a gente imagina como deve ser a farra por aí, com o dinheiro público!
Em seu artigo, o deputado fala de meias-mentiras e de meias-verdades (o que deve ser a mesma coisa), então uma verdade inteira é que o serviço público no Paraná – exceção para as áreas da saúde, da educação e da segurança – tem ‘‘servidores’’ demais. Assembléia incluída, porque tem não só funcionário demais como deputado demais, esta sui generis Assembléia que é digna de figurar no Guiness Book, porque durante os últimos quarenta anos teve 1 deputado apenas...
Fazendo menção ‘‘à diversidade do perfil dos colaboradores do serviço público’’ – diversidade porque eles entraram de formas diversas, e nós sabemos como a maioria entrou – diz que essa diversidade criou a imagem do servidor com o estereótipo da preguiça, da má vontade e da incompetência, mas que isto é apenas meia-verdade. E salva os seus servidores, afirmando que eles ‘‘não têm esse perfil e são dedicados e competentes’’.
Taí mais uma indicação para o Guinness...
Mas todas essas questões são ainda cosméticas diante do fundamental, que é a necessidade de, antes que tudo, modernizar o modelo de deputado. E ao dizer que é preciso (a Assembléia) melhorar a prestação de serviços à comunidade paranaense, o deputado-presidente toca no ponto.
Modernizar o Legislativo é acabar com essas sessões extras (entenda-se ganhos adicionais para os deputados), quando nada se discute e nada de importante se aprova, até porque pouco se discutiu e pouco de importante se aprovou durante os meses de expediente normal.
Modernizar o Legislativo será será cada deputado conscientizar-se da responsabilidade que assume ao ocupar assento nessa Casa, um assento muito mais importante do que ele supõe.
Modernizar o Legislativo é, afinal, os deputados começarem a discutir os problemas que estão aí envolvendo 8,5 milhões de paranaenses, mas que ainda não encontram ressonância sob o teto da Assembléia Legislativa.
Estes problemas são os da segurança pública, da saúde, da educação e do baixo salário da ‘‘comunidade braçal’’ dessas áreas, estas sim autênticas servidoras e necessitando de atenção, mas não se conhece da Assembléia nenhum grande projeto relacionado com essas causas.
Os problemas são a gigantesca dívida pública do Estado, dando ensejo a essa insensatez de antecipar royalties, de antecipar IPVA.
São essa afronta representada pela instituição do pedágio em rodovias já prontas e pertencentes ao povo.
Os problemas são as invasões de terras, sem nunca se ter visto um deputado, ou uma comissão de deputados, buscando ajudar na solução da questão agrária, que tão diretamente tem envolvido o Paraná.
Os problemas são a corrupção, o empreguismo, o gasto excessivo da máquina governamental.
Os problemas são os que atingem a agricultura, e não vamos nunca nos cansar de repetir o velho e surrado chavão de que este é, sim, um Estado agrícola, gostem os urbanistas ou não. Se as ações governamentais que envolvem este setor partem, no mais das vezes, do governo federal, nada impede os deputados de interagirem, caminhando junto com as liderenças do campo. Não só caminhando junto mas também assumindo posições de vanguarda!
Modernizar o Legislativo é isto.

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