Meios de extinção não faltam. Se tantos não bastassem, o homem ainda inventaria as guerras. Já os meios de salvação são escassos. O médico é um deles. E é exatamente no círculo médico onde mais se encontram defensores da eutanásia; ou, que não se pode retardar uma ‘‘morte inevitável’’. Caso dos doentes terminais.
Agora, num debate promovido pelo Departamento de Pediatria da Associação Médica de Londrina, o médico Gabriel Oselka, ex-presidente do Conselho Federal de Medicina, manifesta-se contra a manutenção da vida dos pacientes internados em estado terminal. Ele argumenta que não se pode retardar ‘‘uma morte inevitável’’, inclusive para não prolongar o sofrimento do doente e dos seus familiares, dos amigos e da equipe médica.
Ora, a função do médico é lutar pela salvação da vida, até o derradeiro sopro, e não extingui-la. Quem saberá determinar quando um doente está terminal, se a Ciência ainda não deu sua última palavra?
Caso recente, na Inglaterra, demonstrou que um paciente tido como terminal ‘‘ressuscitou dos mortos’’ alguns anos depois que tivera sua morte clínica decretada, e tal fato reacendeu a polêmica questão da eutanásia e reformulou conceitos, inclusive nos meios médicos e científicos, sobre o direito de interromper a vida de alguém qualificado de terminal porque se encontra ou em coma profundo ou (supostamente) só mantido por aparelhos. Como pode o homem saber a que momento se rompe o ‘‘cordão de prata’’ que sustém a vida corpórea? Quando Jesus ‘‘ressuscitou’’ Lázaro, já tido como morto pela família, não operou nenhum milagre mas apenas reavivou um envólucro carnal que ainda preservava seu fluido vital. E os incontáveis casos de exumações que comprovaram que o corpo moveu-se, depois de sepultado? E as nada folclóricas mas verdadeiras histórias de ‘‘mortos’’ que se levantaram, em pleno velório? Coisas de arrepiar. Então não dá para considerar a vida tão displicentemente, ainda mais por correntes da comunidade médica.
Com todos os seus avanços, a medicina convencional ainda engatinha. Julga-se com o domínio de todo o conhecimento sobre o fenômeno da morte, a ponto de estabelecer com ‘‘precisão’’ quando ela ocorre, mas nada busca saber sobre o mistério da vida. Morte e vida se correlacionam. São co-irmãs. Não podemos estudar uma sem nos aprofundarnos na outra. E agora falamos de vida, de vida que ainda pulsa num doente terminal. Nada é terminal enquanto não terminou, e tratando-se de vida humana melhor é deixar que a Providência Divina se encarregue de extingui-la, quando for de Sua vontade. O homem, nem de longe, pode pressupor que tem o direito de interromper o ciclo da vida.
Quem pratica ou favorece o aborto corta a vida em seu início; quem aplica a eutanásia corta a vida no fim, ou que julga ser o fim. Ao médico é proibido - legal e eticamente - o aborto; em outro extremo, a morte pela eutanásia é humanamente inconcebível.
O médico Gabriel Oselka, que é também professor associado do Departamento de Pediatria da Universidade de São Paulo (veja-se aí quanta responsabilidade, porque certamente estará repassando aos alunos essas idéias), afirmou no seu debate em Londrina que esse retardamento da ‘‘morte inevitável’’ é causado pela ‘‘cultura paternalista’’ da relação entre médico e paciente; que o médico deve explicar-lhe que sua doença não tem cura, e assim ‘‘evitar sofrimentos desnecessários’’. Isto significa que ele terá que ser desconectado da vida.
É de arrepiar, partindo da mente e da boca de um médico.
Nem imaginar que alguém deseje que se prolongue o sofrimento desses infortunados doentes, mas enquanto houver um sopro de vida devem ser usados todos os expedientes de salvação; e não de extermínio, como quer o médico-professor na USP.
Não se exige de um médico que salve todas as vidas, nos leitos hospitalares e mesas de cirurgia, mas ele tem uma sagrada missão salvadora, e disto deve ter consciência; ademais, lembrar-se de seu juramento.
Mas a razão mais importante da defesa da vida do doente qualificado de terminal é que, num derradeiro minuto, ele poderá chegar a um estado de lucidez e clarividência e manifestar um perdão ou um pedido de perdão, um voto, uma confissão, um arrependimento. Pode manifestar-se neste instante o seu renascer para Deus, e mais valerá aos olhos do Criador este lampejo extremo que toda uma vida que possivelmente tivera de desvios e imperfeições.
Tal é possível e ninguém tem o poder e o direito de furtar-lhe esta derradeira oportunidade terrena.

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