O resultado das eleições municipais parece indicar que o povo quer uma nova perspectiva política para o País. Esta indicação é mais visível nas capitais e nas grandes e médias cidades onde a oposição, particularmente o PT, obteve um crescimento importante do número de votos. O voto oposicionista tem vários significados: é um voto no combate à corrupção e na defesa da moralidade pública, um voto nas políticas sociais, um crítica à política econômica do governo, uma busca de renovação de lideranças, de renovação dos costumes, práticas e comportamento políticos, um voto na perspectiva de uma maior participação política da sociedade e um voto por melhores condições de vida nas cidades.
O crescimento do PT é inequívoco. Se tomarmos como parâmetro as eleições municipais de 1996, o PT saltou de 7,8 milhões de votos para 11,9 milhões, significando um aumento de 51,25%. O crescimento de prefeituras conquistadas pelo partido é de 57,27%. Esse crescimento, já materializado, terá que ser consolidado agora no segundo turno. Em contrapartida, o PSDB, em número de votos, cresceu 3,47%; o PMDB, 4,25%; o PFL, 28,79%; o PTB, 33,27% e o PPB decresceu 30,32%.
Algumas análises sustentam que o crescimento do PFL à direita e do PT à esquerda indicaria que o eleitorado está predisposto a consolidar estruturas partidárias. Afinal de contas, são essas duas agremiações que buscam, cada uma a seu modo, comportar-se realmente como partidos políticos. Neste sentido, é sintomático o encolhimento do PPB. O seu maior líder, Paulo Maluf, tem declarado que não governa com partido, mas somente com ele mesmo. Os candidatos do PSDB, no decurso do primeiro turno, praticamente esconderam a legenda.
O que se verifica é que, eleição após eleição, o PT vem crescendo eleitoralmente num movimento que se expande dos grandes centros urbanos para as cidades menores. Processo semelhante ocorreu com o MDB no período do regime militar e, mais recentemente, com o PSDB até chegar à Presidência da República. Esses movimentos de onda não se explicam apenas pela suposição de que fazer oposição é mais fácil. Ocorre que a oposição geralmente expressa uma crítica econômica e social e uma crítica à corrupção. O partido que chega ao poder e fracassa na reforma econômica e social, não produzindo justiça, e abandona a moralidade pública, tende a ser abandonado pelo eleitorado. Esta constatação deve servir de advertência para nós, do PT.
Sem dúvida, as duas principais virtudes do PT consistem no compromisso com a moralidade pública e no compromisso com programas sociais e de distribuição de renda e riqueza. Somente um partido capaz de reiterar permanentemente esses compromissos pode perdurar no governo. Ao que parece, é o que o PT vem conseguindo em Porto Alegre.
Outra indagação que se faz é se o resultado das eleições municipais produz efeitos sobre as eleições de 2002. A resposta dever ser condicional: tanto pode quanto não pode produzir efeitos. Na medida em que a política é dinâmica, tudo depende do comportamento e das ações dos agentes políticos. Por exemplo: uma otimização dos governos municipais conquistados pelo PT e um fraco desempenho econômico e social do governo pode potencializar os candidatos petistas em 2002. Um bom desempenho econômico e social do governo pode neutralizar, em parte, possíveis êxitos administrativos do PT. Há muitas outras variáveis em jogo, como política de alianças etc.
Quanto ao segundo turno das eleições municipais, o PT deve ratificar sua tática do primeiro turno que consistiu em enfatizar os projetos e políticas sociais, o compromisso com a ética e com o combate à corrupção e a crítica ao modelo econômico vigente. O que se verifica é que alguns adversários do PT começam a intimidar o eleitorado afirmando que a vitória do partido significaria anarquia, bagunça, desgoverno, confiscos etc. Trata-se de terrorismo ideológico inaceitável e incompatível com a prática democrática e com a construção de uma sociedade civilizada.
No segundo turno, o PT deve ampliar as alianças com outros partidos progressistas e de esquerda. Deve saber também distinguir o que é aliança e o que é apoio eleitoral. Não deve fazer alianças com adversários programáticos e ideológicos, mas pode aceitar-lhes a declaração de apoio desde que o adversário se caracterize por uma conduta democrática e ética. Ressalvadas estas condições, na democracia, a relação entre adversários políticos deve ser encarada como um fato necessário e normal.
- JOSÉ GENOINO é deputado federal pelo PT-SP