O que as bets têm a ver com saúde mental e o desempenho no trabalho?
Mais de 270 benefícios relacionados à ludopatia foram concedidos pelo INSS entre junho de 2023 e abril de 2025, segundo o Tribunal Superior do Trabalho
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quinta-feira, 10 de setembro de 2026
Mais de 270 benefícios relacionados à ludopatia foram concedidos pelo INSS entre junho de 2023 e abril de 2025, segundo o Tribunal Superior do Trabalho
Sarah Figueiredo 
Setembro é um mês que nos convida a ampliar a conversa sobre saúde mental. E talvez uma das principais reflexões seja justamente esta: precisamos falar de prevenção antes que os problemas cheguem ao limite. É nesse ponto que as bets entram nessa conversa.
Apostar, por si só, não significa necessariamente ter um problema. A questão começa quando o jogo deixa de ser uma escolha e passa a ser um comportamento difícil de controlar e suas consequências podem ultrapassar o aspecto financeiro. Ansiedade, impulsividade, alterações de humor, dificuldade de concentração, conflitos familiares, endividamento e sensação de perda de controle podem aparecer nesse processo.
E há um lugar onde todos esses impactos acabam, muitas vezes, aparecendo: o trabalho.
Um levantamento divulgado pelo Tribunal Superior do Trabalho mostra que 276 benefícios relacionados à ludopatia foram concedidos pelo INSS entre junho de 2023 e abril de 2025. O número representa um crescimento de mais de 2.300% em relação à média anual registrada entre 2015 e 2022, quando eram concedidos cerca de 11 benefícios por ano.
Mais do que olhar para o número absoluto, o que chama atenção é o movimento. O problema não começa necessariamente quando alguém precisa se afastar do trabalho. Antes disso, podem aparecer sinais mais sutis: queda de concentração, atrasos, faltas, uso excessivo do celular durante o expediente, alterações de humor, redução de produtividade, pedidos frequentes de adiantamento salarial ou empréstimos.
Nenhum desses comportamentos, isoladamente, significa que uma pessoa tenha problemas com apostas. Por isso, essa é uma conversa que precisa ser conduzida com cuidado. A empresa não deve investigar a vida privada de seus trabalhadores. Deve estar preparada para perceber quando mudanças de comportamento começam a interferir na rotina profissional.
E isso exige equilíbrio. Existe uma linha tênue entre acolhimento e responsabilidade. A organização pode oferecer suporte, orientar a busca por ajuda especializada e preparar suas lideranças para conversas delicadas. Ao mesmo tempo, precisa manter claras as responsabilidades, as expectativas de desempenho e os processos que garantem o funcionamento do negócio.
As expectativas de desempenho continuam existindo. Os processos precisam funcionar. As responsabilidades precisam estar claras. A questão é fazer isso sem transformar uma possível situação de sofrimento em motivo para punição ou preconceito.
É por isso que falar de saúde mental nas empresas precisa significar também falar de prevenção. No caso das bets, isso passa por informação, conscientização, preparação das lideranças e canais de acolhimento. Não se trata de controlar a vida das pessoas, mas de criar uma cultura capaz de reconhecer sinais de sofrimento e oferecer caminhos de apoio.
Talvez a pergunta que as empresas devam fazer não seja “quem aqui aposta?”, mas “estamos preparados para perceber quando um comportamento começa a afetar a saúde, as relações e o trabalho?”
Essa mudança de perspectiva faz toda a diferença.
O Setembro Amarelo pode ser uma oportunidade para ampliar essa conversa. Porque cuidar da saúde mental não é esperar que alguém chegue ao limite para oferecer ajuda. É criar condições para que as pessoas possam reconhecer que precisam de apoio e para que as organizações saibam como acolher sem deixar de gerir.
Diante do crescimento das apostas online e dos sinais de seus impactos no ambiente profissional, talvez seja hora de colocar as bets também nessa conversa.
Sarah Figueiredo, psicóloga, especialista em carreiras e negócios


