Mais importante do que saber o que Bush quer da gente é o que a gente quer de Bush. Palavras do presidente Lula, às vésperas da visita do supremo mandatário norte-americano ao Brasil. O que Bush quer, sabe-se claramente: aproximar-se dos ''amigos'' centro e sul-americanos depois da presença incômoda (para ele) do venezuelano Hugo Chávez, que vai criando simpatizantes pelo seu desassombro de desafiar abertamente o presidente George Bush e mandar irônicos recados à poderosa Secretária de Estado Condoleeza Rice - que também vem ao Brasil.
Mais do que celebrar acordos de cooperação em biocombustíveis, com destaque para o etanol (o álcool etílico), o presidente Bush busca fortalecimento e coloca o interesse político pessoal e o interesse econômico de seu país acima de tudo. E também porque, obviamente, a opção pela intensificação do uso de combustíveis renováveis é uma contingência mundial, depois das graves advertências sobre o aquecimento global pela excessiva emissão de gases nocivos e poluentes - no que os Estados Unidos são campeões mundiais. Isto e mais a pressão democrata no Congresso obrigam o presidente republicano a buscar apoios logísticos e alternativas energéticas. O etanol e outras matrizes menos poluidoras não cheiram bem (e isto agrada Bush) ao olfato de Hugo Chávez, que sustenta seu poder político e econômico nos petrodólares e coloca os EUA em posição de certa dependência, pela necessidade de importar cotas de petróleo venezuelano.
Não há nesse jogo grande interesse de ninguém em preservação ambiental, embora esta venha no bojo. No caso do Brasil, o objetivo é econômico; e dos EUA, a razão é o fogo cerrado que cerca o ocupante-mor da Casa Branca. Porque logo abaixo está a presença desconfortante de um líder venezuelano provocador e ardiloso, e no âmbito interno a maioria democrata no Congresso fazendo cobranças e exigindo, nos acordos bilaterais, cláusulas ambientais. Mais poder político e simpatia mundial acaba de ganhar o Partido Democrata, com a campanha encetada por Al Gore em defesa do meio-ambiente e que tange, no bloco geral, também o seu país. Al Gore, vice de Bill Clinton e candidato democrata derrotado por Bush por conta de fraude eleitoral (nos EUA, imagine-se!), teve agora seu filme-documentário (que o tem como principal ''ator'') contemplado pelo Oscar, e isto robustece o cerco contra os insensíveis e poluidores, do tipo George Bush - que não assinou o Protocolo de Kyoto.
É sempre bom desconfiar dos propósitos que emanam dos Estados Unidos, bastando abrir os olhos para perceber que - se os biocombustíveis serão os grandes vencedores, atentando-se que uma eventual produção desordenada não venha a prejudicar o cultivo de alimentos - a postura amistosa da Casa Branca tem antes de tudo razões estratégicas. Não o que Bush quer mas ''o que a gente quer de Bush'' (a gente, é o Brasil e também a vizinhança sul-americana) é uma importante posição do presidente Lula. Corajosa, com a toda a certeza, e não a mando de Hugo Chávez.

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