Folha - Sobre a questão de cobrar multa, já foi aplicada em algum caso?
Sílvio - Já foi aplicada aquela lei em diversas pessoas. Agora, existem algumas situações em que nós achamos que a multa não resolve, principalmente nesses bairros mais carentes, onde existe surto epidêmico. Nesse locais não teria sentido, se a pessoa luta pela sobrevivência, não tem dinheiro nem para pegar ônibus, vai ter dinheiro para pagar multa? É importante, é. Mas por si só não vai resolver o problema.
Folha - No ano passado, o senhor já tinha divulgado objetivos de que, neste ano, haveria uma redução de casos...
Sílvio - Nossas metas eram metas de reduzir pela metade. Infelizmente nós não só não conseguimos reduzir as metas como passamos a viver uma situação de epidemia.
Folha - E agora? Como fica?
Sílvio - Agora é intensificar as ações. As estratégias que estamos utilizando são aquelas que deveriam ser utilizadas. Nosso entendimento é que temos que intensificar o controle do mosquito, que passa pelo envolvimento da população, ainda maior. Nós temos 190 agentes e 162 mil imóveis em Londrina, é o índice adequado, de um agente para o cada 800 a mil imóveis. Agora, não é o agente que vai fazer o trabalho do morador.
Folha - Quais aspectos que a saúde não consegue controlar? O senhor citou o Monte Cristo, mas a cidade não é toda daquele jeito. Qual o problema do restante...
Sílvio - Nossa média ponderada de infestação é de 4,95%. Se temos 162 mil imóveis, dá 8 mil imóveis que nesse momento teria a presença da larva do mosquito. Por quê? Por diferentes fatores. Estamos fazendo o trabalho que nos cabe. Mas não é o papel da Saúde fazer o papel que cabe a comunidade.
Folha - Não está faltando ser mais contundente nessa campanha, mostrar o doente, falar como a doença é ruim como as campanhas contra cigarro, por exemplo?
Sílvio - Estamos tentando ser mais agressivos possível nas nossas estratégias. Há alguns meses venho falando que a dengue pode matar.
Folha - O mosquitinho está vencendo essa guerra?
Sílvio - Não diríamos que perdemos a guerra, mas está em um embate aí. Mas, por enquanto, dá para dizer que o mosquito está ganhando.
Folha - A questão dos imóveis vazios...
Sílvio - Nós estamos usando três estratégias: a primeira, junto às imobiliárias; a segunda, identificando o proprietário e multando. E a terceira que é a gente tentar buscar alternativa legal para entrar no imóvel, arrebentar a porta para entrar.
Folha A questão do Comitê que tinha marcado uma ação para antes do carnaval, que depois foi adiada e adiada mais uma vez... A morosidade do sistema é que é cobrada.
Sílvio - A fato do Dia D ter sido adiado não significa que outras coisas não estejam sendo feitas. Para ser justo quero dizer que a gente reclama do povo que não está mobilizado mas no geral é preciso destacar aqueles que já estão. Exemplo são os Conselhos de Saúde, empresários, bancos, entidades, a própria Folha...
Folha - No caso de Lerroville, se for confirmado a morte da menina Danielle por dengue hemorrágica, poderemos ter uma epidemia de dengue hemorrágica?
Sílvio - Essa diferenciação da dengue clássica para dengue hemorrágica não é usada para caracterizar epidemia. Até o momento nós temos uma epidemia de dengue sem casos de dengue hemorrágica. Se esse caso for confirmado, nós teremos uma epidemia de dengue com um caso de dengue hemorrágica e uma morte. Nós ainda não temos dengue hemorrágica. Mas vai ter. Infelizmente, eu tenho uma expectativa que não será surpresa se houver casos de dengue hemorrágica em Londrina. O histórico das epidemias de dengue mostra isso.
Folha - A longo ou curto prazo?
Sílvio - Difícil prever. Mas dificilmente não teríamos dengue hemorrágica em Londrina, e em qualquer região da cidade.
Folha - No caso da Danielle, a secretaria divulgou que os materiais para exames não foram coletados nos prazos certos. Isso levantou dúvidas de algumas pessoas, que essa justificativa de uma possível negatividade de dengue seja uma desculpa para não assumir o primeiro caso de dengue hemorrágica, porque isso geraria um desgates político muito maior. Isso é possível?
Sílvio - A gente não tem absolumente nenhum interesse de esconder nada. Nós até fizemos questão de usar o termo epidemia, mesmo que tecnicamente possa ser questionado, não tememos desgaste nenhum. Nossa responsabilidade é de fazer bem nossas ações. Se for dengue hemorrágica foi uma fatalidade, infelizmente. Até digo para você: vai ter dengue hemorrágica em Londrina, vai morrer gente por dengue, não dá para negar isso. E não só em Londrina. Em qualquer cidade que esteja na mesma situação. Isso é um fato previsível do ponto de vista epidemiológico.
Folha - E o que fazer para evitar mortes?
Sílvio - O que nós podemos fazer estamos fazendo. E intensificando cada vez mais nossas ações. Infelizmente às vezes as pessoas acham que existe solução mágica. Se existisse, eu seria o primeiro a adotar. Mas não tem. Solução é o envolvimento de todas as pessoas para cada um fazer o seu papel. Não tem milagre nesse negócio. O tratamento, do ponto de vista da prevenção, é esse que está sendo adotado.
Folha - O único quadro que resolve seria se não houvesse qualquer índice de infestação?
Sílvio - O único quadro para se evitar mortes é manter o índice das larvas nas casas inferior a 1%.
Folha - E dentro de quanto tempo é possível reverter essa situação?
Sílvio - Eu tenho até evitado fazer previsões, porque as pessoas dizem 'o secretário disse que o problema vai diminuir em tal época'. Não, a gente tem que fazer de tudo para diminuir rápido, agora.
Folha - Então, nessa situação, tem que ser alarmista mesmo?
Sílvio - Exatamente.
Folha - Em 2004 as coisas podem ser pior?
Sílvio - Difícil de prever. Mas um dos cenários é ser pior ainda que este ano.
Folha - Acompanhando a curva de crescimento de casos, ano a ano, a gente nota uma elevação acentuada. A Secretaria não tinha como prever isso, antecipadamente?
Sílvio - Prever exatamente o que ocorreu este ano, não. Mas o comportamento da doença é de descer do Norte para o Sul. Por exemplo, tem tido reuniões em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que não tiveram até agora nem um caso autóctone. Mas eles vão ter. Estão preocupados com isso. Mas o fato de se preocuparem não é suficiente para impedir que a doença chegue lá. Vai chegar. Assim como nós, há alguns anos, nós não tínhamos nenhum caso no Paraná. Antes de ter dengue, já estávamos preocupados. Volto a dizer, a solução não é mágica.
Folha - Mas a questão é o porquê não se fez antes. Precisava esperar chegar nesse ponto?
Sílvio - As medidas tecnicamente adequadas foram tomadas no momento certo. Qual foi a medida de dezembro que deveria ter sido tomada? Fazer o bloqueio do Novo Amparo onde teve surto. E foi feito de imediato. Passar inseticida, vistoriar casa por casa, eliminar os focos, comprar tambores tampados. Nós não tínhamos condições de adivinhar que haveria um foco no Monte Cristo e Santa Fé e nos antecipar lá. Não tenho essas condições.
Folha - A secretaria foi pega de surpresa por essa 'epidemia explosiva'?
Sílvio - A gente não esperava que a situação deste ano fosse dessa magnitude. Pego de surpresa com o aumento da ocorrência dos casos de dengue, não. Mas a dimensão do problema, de fato, foi muito grande.
Folha - O que pode acontecer daqui para frente?
Sílvio - A gente trabalha com diferentes cenários. Estamos nos preparando para eles. O mais otimista é que, na semana que vem, a gente possa ver uma redução no número de notificações, resultado dessa intensificação das ações.
Folha - E na pior das hipóteses?
Sílvio - Podemos ter casos de dengue hemorrágica, morte, continuar elevada a incidência, o clima não ajudar com chuva e calor , o inverno demorar a chegar...

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