O PT sempre foi tido como partido mais ético da moldura política. Muitos de seus quadros foram talhados pelo aço do sofrimento e do sangue, nos anos negros da ditadura. Seu estandarte estampa as cores da liberdade e da dignidade, da justiça e da defesa dos oprimidos, da melhor distribuição de renda e da valorização da cidadania. O PT, quem diria, acaba de ser flagrado cometendo um daqueles pecadilhos tão denunciados por sua orquestra de trombetas tonitruantes. Paulo de Tarso Venceslau, ex-guerrilheiro, ex-secretário de prefeituras petistas, em São Paulo, abre o bico para anunciar que o PT nunca quis investigar as denúncias de ter participado de maracutaias, ao permitir que administrações municipais sob seu comando assinassem contratos sem licitação com a CPEM (Consultoria para Empresas e Municípios). A empresa pertence à Roberto Teixeira, empresário que cedia uma casa para Lula morar.
Os dirigentes do PT reconhecem que o partido errou ao não investigar as denúncias feitas por Paulo de Tarso. E para dar uma satisfação à sociedade, prometem investigar seriamente a questão. Antes tarde do que nunca. O problema é que a bomba que acaba de cair sobre os redutos do ex-partido ético o transforma em parceiro do maior empreendimento nacional: a malha da corrupção. Diante de Madalenas pecadoras, Ronivons caricatos, João Alves e os anões do Orçamento, o PT perde o arroubo para jogar pedras, tragado que foi pelo inexorável bordão bíblico: aquele que não tem culpa atire a primeira pedra. Vai ser engraçado, doravante, o PT exigir assepsia de seus parceiros políticos, quando ele próprio se vê às voltas com um imenso cisco nos olhos. Que moral terá o partido para pregar sermões de decência, quando seu púlpito está montado sobre um cantinho de lama?
Infelizmente, como lembra Bobbio (O futuro da democracia), uma das promessas não cumpridas pela democracia real é a eliminação do poder invisível. Poder que coloca Lula favorecendo um amigo empresário no mesmo balaio das recompensas fisiológicas e no mesmo espaço dos subterrâneos de cooptação por meios ilícitos. As ações dos governos, nas democracias ideais, devem se desenvolver claramente, à semelhança dos antigos atenienses, que se reuniam no Ágora para tomar livremente, à luz do sol, suas próprias decisões, depois de ouvirem pontos de vista dos oradores. O poder sem máscara, como se vê, é uma utopia. O que muda é o tamanho e a forma de se usar a máscara, mas isso não cria diferenças entre partidos e agentes políticos, pois como lembrou, um dia, o velho Ulisses Guimarães: ‘‘uma pessoa 99% honesta é 100% desonesta, pois não existe honestidade parcial. Ou se é honesto por completo ou não’’.
E assim vamos construindo o nosso tecido político. Cheio de remendos, costura, buracos e manchas. É claro que a denúncia sobre corrupção no PT, nesse momento, provoca um nivelamento na argamassa do mais recente ‘‘edifício ético’’, iniciado pela Comissão de Sindicância voltada para a apuração da compra de votos e pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que está analisando a questão. A formação de uma CPI para investigar a teia da reeleição, a esta altura está comprometida, porque os seus mais intrépidos defensores - figurantes do PT - vão procurar, antes, curar as feridas abertas. No âmbito do partido, a denúncia servirá, ainda, para reacomodar as posições. Quem estava enfraquecido, tende a se fortalecer e vice-versa. Lula, a maior referência partidária, vai ter que engolir muitas frases que pronunciou, recentemente, sobre falcatruas, corrupção e quetais. José Genoino e Eduardo Suplicy, que abrem cada vez mais espaços na mídia para trombetear valores da ética e da honestidade, terão de raspar o fundo do tacho, na procura da verdade.
Na arquibancada, partidos, parlamentares e grupos da sociedade estão com um binóculo para assistir o desfecho de mais um espetáculo de nossa cultura política: o PT na boca da botija.

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