Em matéria de relações internacionais, Lula não tem se saído muito bem ultimamente, e isto acontece porque o candidato do PT à presidência da República, na sua ilimitada vaidade, teima em se comportar como se já estivesse ganho a eleição e devesse, portanto, ser recebido e homenageado como chefe de Estado por autoridades de outras nações.
Essa parece ser uma antiga ambição de Lula, que já almejou, em vão, em outros tempos, ser recebido pelo presidente Bill Clinton. Naturalmente, a tentativa fez lembrar um dos episódios protagonizados na TV pelo saudoso personagem Odorico Paraguassu, que tentou e não conseguiu entrar na Casa Branca para presentear o presidente norte-americano com um coco cheio de cachaça.
É verdade que nas suas viagens pelo mundo Lula obteve algum consolo ao ser recebido por Fidel Castro, e mesmo pelo presidente da África do Sul, Nelson Mandela, mas recentemente as relações internacionais do PT parecem estar sendo duramente postas à prova. Ao mesmo tempo, fica claro que o radicalismo do PT não combina com diplomacia, e que a necessidade de afirmação desse partido extrapola o limite do desejável, conduzindo desse modo seu candidato a situações insólitas e mesmo ridículas, incompatíveis, portanto, com a postura de quem almeja governar o País.
Os dissabores internacionais petistas mais recentes começaram no mês passado, quando o presidente da Argentina Carlos Menem observou que a vitória de Lula seria desastrosa para o Mercosul, que provocou reações furiosas no comando de campanha do Partido dos Trabalhadores. Agora, a ira redobrou com a vinda ao Brasil de Nelson Mandela e do ministro do gabinete trabalhista britânico, Peter Mandelson.
Com relação a Mandela, o candidato das esquerdas só conseguiu um rápido encontro marcado às pressas, no qual não foram permitidas filmagens ou fotografias. A única foto foi surrupiada por Vicentinho, presidente da CUT, que a enviou para a imprensa. Mesmo assim, numa tentativa de agradar o presidente sul-africano, Luiz Inácio Lula da Silva afirmou: ‘‘Acho que o Brasil há muito tempo trata a África com desdém. Provavelmente, na cabeça de alguns dirigentes, permanece a idéia de colonialismo com aquele continente’’.
Com relação a essas declarações, disse Mandela: ‘‘Não posso comentar opiniões de outras pessoas, mas a cooperação do governo brasileiro com a África do Sul é muito satisfatória’’. E ao lado do presidente Fernando Henrique, discursou: ‘‘Na África, bem como no cenário internacional, Vossa Excelência conquistou uma reputação de respeito por ter defendido a causa da paz e da estabilidade econômica’’.
Em relação ao ministro inglês a situação foi ainda pior, pois Peter Mandelson criticou abertamente demonstrando que o PT inglês (o Labor Party, que traduzimos por Partido Trabalhista) e o PT brasileiro (Partido dos Trabalhadores) não têm muito em comum: ‘‘Acho que Lula dá ênfase a uma visão retrógrada e tradicional, com idéias que não são consistentes com o ideário da centro-esquerda’’. E a isso o ministro acrescentou: ‘‘As pessoas ficariam surpresas se Fernando Henrique não continuar como presidente’’. ‘‘Há líderes no mundo que adorariam ter sua reputação que marketing nenhum pode dar’’.
Imediatamente a cúpula petista respondeu de forma extremamente irritada e num tom de intriga de comadres. Lula acusou o presidente Fernando Henrique de ter ‘‘encomendado’’ a crítica do ministro inglês de ser um ‘‘encantador de serpentes’’, enquanto que o secretário de Relações Internacionais do PT e coordenador da campanha de Lula, Marco Aurélio Garcia, despejou suas mágoas, dizendo: ‘‘Esse ministro sem pasta foi um professor Pardal, ingênuo e irresponsável, e gostaria de saber o que ele conhece de nossas propostas, pois elas não foram nem ainda traduzidas para o inglês’’.
Além disso, o comando de campanha enviou cartas queixosas ao primeiro-ministro britânico Tony Blair e ao embaixador do Reino Unido no Brasil, Donald Keith Haskell. Não faltou também a palavra terrorismo, que parece ter sido incorporada ao vocabulário petista, pois Lula afirmou com relação ao episódio inglês, numa ensaiada pose paranóica, que seus adversários ‘‘não têm outra coisa a fazer’’ a não ser atribuir a ele ‘‘ações terroristas’’.
E além de terrorismo, outro vocábulo também foi adquirido pelo jargão petista: colonialismo. Foi usado pelo candidato presidencial para agradar a Mandela, e de forma oposta hostilizar o ministro inglês: ‘‘Este senhor precisa saber que o Brasil não é mais colônia’’. Só faltou Lula ressuscitar a escravidão, ou as capitanias hereditárias, nesta incontrolável saudade eleitoral do passado.
Mas cá para nós, se essa ‘‘terceira via’’ do PT inglês é de fato uma baboseira que nunca deu certo desde os tempos do seu inventor Perón, também não precisava o PT Brasileiro se indignar tanto diante das autoridades estrangeiras. Afinal, imagine se elas tivessem que receber e elogiar Enéas, Ciro Gomes e outros candidatos à presidência da República cujo nome me esqueci no momento. Não faria outra coisa.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga

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