O PT e a política no Brasil
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de maio de 2003
Paulo Henrique Martinez 
A idéia de que a oposição mais cerrada ao governo Lula virá da esquerda do PT reapareceu na pena de analistas, em rodas de cafezinho, opiniões e discursos de militantes e políticos. Trata-se de uma idéia equivocada, decorrente da incompreensão do significado do PT e de sua trajetória histórica na vida política nacional. Os grupos da esquerda do partido têm resguardado seu espaço, muito embora, o PT tenha abandonado os ideais e argumentos de inspiração socialista, sobretudo marxista. É preciso entender esse processo.
No início da década de 1980, a oposição ao regime militar encontrava-se cerceada em suas ações de organização, de debate, propaganda e atividades políticas. O discurso ideológico foi um recurso exaustivamente explorado durante o confinamento imposto pela crise da ditadura. O PT acolheu diversas correntes políticas que tinham no discurso ideológico sua forma de expressão mais aguerrida, contundente e visível.
Entre 1982 e 1989, a participação eleitoral catalisou as ações de organização e os programas partidários, os trabalhos na Assembléia Constituinte e no Legislativo, a mobilização social, a condução de prefeituras pelo país afora e a disputa presidencial em 1989. A derrota para Collor não eliminou a água na boca dos dirigentes petistas, de todas as colorações. Antes, aguçou o apetite pelo controle do Executivo federal. A renúncia em participar do governo Itamar Franco pretendeu manter intocada a imagem eleitoral de 1989. A vitória na eleição nacional tornou-se uma obsessão. Seria protelada pela era FHC.
É na segunda derrota eleitoral de Lula que deve ser buscada a nova guinada pragmática do PT, a cerrada oposição no Congresso e na sociedade às políticas governamentais, a retomada do controle da direção partidária pelas correntes empenhadas na vitória nas urnas e o endurecimento do jogo com a esquerda. O esforço traduziu-se na composição e no desempenho eleitoral de 1998. Insuficiente, porém, para garantir o sufrágio. Enfim, 2002. O governo Lula emerge tanto como a realização de esperanças, quanto como frustração e negação dessas mesmas expectativas.
Os parlamentares petistas críticos do governo também possuem uma base eleitoral, que os cobra e pressiona pelo desempenho do governo federal. Têm, então, que fazer alarde, discursos inflamados e clamar contra as condutas que apontam em direção contrária à transformação profunda das relações sociais, econômicas e internacionais do capitalismo.
O deputado Lindbergh Farias (RJ), por exemplo, não hesitou em proclamar, frente aos apertos da direção partidária, sua disposição em sucumbir aos ditames do Planalto, mas que não poderia fazê-lo sem uma saída honrosa. Leia-se, que não o indispusesse com seus insatisfeitos eleitores. Reprimendas disciplinares, papel de vítimas e de guardiões da ética partidária, da coerência ideológica e histórica do PT são também trunfos eleitorais que os ditos radicais, mais do que ninguém, insistem em assegurar. Teriam algo mais a dizer?
PAULO HENRIQUE MARTINEZ é professor no Departamento de História da UNESP em Assis (SP)


