O PT e a idade da razão - Maria Lucia Victor Barbosa
Maria Lucia Victor Barbosa
No dia 10, o Partido dos Trabalhadores completou 20 anos. No tempo que os homens inventaram, esse é um período razoável para se viver ou morrer, criar ou destruir, ganhar ou perder, amar ou odiar, prosperar ou fracassar, quer dizer, desenvolver alternadamente os componentes básicos da passagem da vida humana sobre este tantas vezes insensato vale de lágrimas. Acontece que o Estado e demais organizações, sendo também criações do homem, refletem suas etapas: nascem, amadurecem e morrem, na sequência inevitável das transformações que permitem, como diziam os gregos, o eterno retorno. Nesse processo, espelham seus criadores com suas perdas e ganhos, conquistas e derrotas, sentimentos elevados ou mesquinhos, mentalidade evoluída ou retrógrada.
As organizações serão o que forem seu cérebro, quer dizer, seu líder ou seus dirigentes, assim como no homem o comando vem de sua mente, de sua consciência, de sua capacidade e de seu livre arbítrio.
Por isso se diz acertadamente, que se o cabeça for atingido, a organização perece. Assim, na tentativa de se livrarem da morte, as organizações das sociedades complexas se burocratizaram, hierarquizaram-se e se encheram de vices e cargos, que não só sustentam a máquina como efetuam rapidamente as substituições necessárias quando o líder de alguma forma se retira. Mesmo assim, uma vez cortado o cabeça principal, as coisas nunca mais prosseguem da mesma forma. Para melhor ou para pior segue o processo, mas jamais com o mesmo contexto ou ritmo.
Exemplo do que se fala pode ser dado através de fatos históricos ocorridos numa sociedade desaparecida, que existiu numa outra época com suas leis, valores, costumes e comportamentos: o Império Inca. E se agora novas quadras brotam de um mundo retransformado pela ciência, pela tecnologia, pelos meios de transporte e comunicação, e pela informática, que se leve em conta que a essência das motivações humanas nunca mudam.
Desse modo, recuemos nas curvas do tempo para regressar ao Império Inca. Vamos assistir à captura do imperador Atahualpa por Pizarro na praça de Cajamarca. Antes, porém, recordemos, que onde os valores de Castela foram implantados, já havia uma estrutura totalitária e um Estado teocrático, aos quais se superpôs a estrutura autoritária espanhola e a religião católica da Contra-Reforma e da Inquisição. Portanto, antes mesmo dos espanhóis, o Império Inca possuía, como escreveu Mario Vargas Lhosa, uma estrutura piramidal e teocrática, cujas façanhas sempre foram coletivas e anônimas. Nesta sociedade, uma religião de Estado anulava a vontade do indivíduo, tendo por isso sido fácil aos 180 espanhóis massacrar os milhares de incas quando Atahualpa foi aprisionado.
Mas voltemos à praça de Cajamarca. Talvez naquele dia o sol brilhasse sobre os 20 milhões de habitantes do império que haveria de ser subjugado por menos de 200 espanhóis, e valentes guerreiros se preparavam para enfrentar aqueles estranhos seres que lhes parecia formar um todo com seus cavalos. Mas conforme Vargas Llosa: no mesmo instante em que o imperador é capturado, suas hostes deixam de lutar, como se estivessem manietadas por uma força mágica. A carnificina é indescritível, mas só de um lado: os espanhóis descarregam seus arcabuzes, cravam suas lanças e suas espadas e avançam com seus cavalos sobre uma massa sonâmbula, que não consegue se defender nem fugir. Em poucos minutos, o poderoso exército que dominava todas as províncias do norte do império se desintegra com um pedaço de gelo em água morna.
O PT fez 20 anos. Um tempo razoável de lutas e conquistas, de derrotas e vitórias. No decorrer do seu processo de crescimento, conquistou poder e modificou-se, apesar de manter a religião de Estado.
No seu nascimento, a característica do corpo sindical, ligado ao cabeça Lula, tinha um lema: Terra, Trabalho e Liberdade. A linha era estatizante, a ideologia de esquerda, (abraçando também alianças com a extrema esquerda). As propostas do PT na sua primeira infância, incluíam: reforma agrária radical, moratória, desconcentração da propriedade, governo dos trabalhadores (ou seria a ditadura do proletariado?), representação através de conselhos populares.
Aos 9 anos, o Partido dos Trabalhadores ainda não crescera o suficiente para seduzir e noivar com o eleitorado. Era uma criança. Na Constituinte, defende a estatização dos bancos, a reforma agraria em terras produtivas, a nacionalização da distribuição dos combustíveis e dos minérios, benefícios às empresas nacionais. Enfim, tudo o que manteve o atraso na América Latina.
Em 1989, o cabeça perde as eleições presidenciais para Fernando Collor de Mello, apesar de o PT já ter diluído sua radicalidade esquerdista e se metamorfoseado em partido chapa branca. Em 1991, substitui a proposta de estatização da economia, por manutenção da economia de mercado com controle social, e expulsa do ninho alguns dos seus grupos de esquerda radical.
Mais duas eleições para presidente, mais duas derrotas para Fernando Henrique Cardoso, em que pese o partido já ter adquirido evidentes sintomas de partido agarra tudo, pois tenta ampliar suas alianças e já não fala em calote, mas em renegociação da dívida externa. Lula, o cabeça, já não é o sindicalista desgrenhado a ulular em portas de fábrica. Veste terno e colarinho branco, fuma charutos cubanos, viaja pelo mundo. Infelizmente, não aproveitou os 20 anos de sua criatura política para se preparar melhor. Seus cabelos já não são os mesmos, mas a sua fala...
Agora ele trabalha loucamente para concorrer pela quarta vez à Presidência, sustentado por um PT completamente descaracterizado em relação aos seus primórdios, que corre o risco de se desmoralizar de vez se tiver uma quarta derrota. Enquanto isso, intelectuais orgânicos do partido se debatem numa dúvida cruel: cortamos ou não o cabeça do partido? O problema é que, se mantê-la, jamais atingirão a idade da razão, e sem ela, poderão morrer.





