O PT e a ética da malandragem
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de maio de 1997
Maria Lucia Victor Barbosa 
Faz tempo, muito tempo mesmo, que nada comento sobre o Partido dos Trabalhadores. Mas o PT agora voltou com força às páginas dos jornais, e permito-me diante dos fatos tecer alguns comentários que longe estão do ataque ou da defesa, mas se situam na pura e simples análise das relações do poder. Lembro, contudo, que jamais se pode empreender este tipo de análise se não se levar em conta o contexto mais vasto do universo cultural brasileiro, onde uma ética da malandragem se faz presente nos relacionamentos que vão desde as fraudes originadas no âmbito governamental até as multas do guarda da esquina.
Esta cultura, entendendo-se por cultura o conjunto de atitudes e valores de nossa sociedade, foi construída desde o começo de nossa colonização por aventureiros gananciosos e sacerdotes pouco edificantes que interpuseram um oceano entre os controles sociais de sua pátria e, no ar afrodisíaco dos trópicos, afrouxaram ainda mais uma moral já em si débil. Deste modo, foi-se produzindo na colônia lusitana, apesar da rigidez aparente das proibições eclesiásticas e inquisitoriais, a plasticidade de costumes, onde o suborno, a ganância, a corrupção, a mentira se converteram em virtudes a serem exaltadas e comungadas por toda a sociedade sob a capa da piedade. Isso, por sua vez, estimulou a simulação, o faz-de-conta, que sempre estiveram presentes nas nossas atitudes, nos induzindo a viver mais de aparências do que de essências. E assim, como observou Carlos Rangel, a mentira na América Latina se tornou constitucional, ou seja, faz parte de nossa constituição enquanto povos.
Em síntese, isso quer dizer que a simulação - também tão própria da política - nada mais é do que a mentira como máscara social que esconde realidades pouco desejáveis. Nestas realidades, funciona o que chamei de ética da malandragem, subtítulo do meu livro O voto da pobreza e a pobreza do voto. E é através da ética da malandragem que se estabelecem de um modo geral no Brasil os comportamentos individuais e grupais sejam eles políticos, econômicos ou religiosos.
Ultimamente, a imprensa tem noticiado mais escândalos do que o normal. Por detrás dos mesmos, manobras políticas e desejos inconfessáveis se camuflam, exercendo com maestria a ética da malandragem. Recheia-se o Congresso de CPIs que nunca se concluem, que nunca chegam a nenhum resultado, enquanto se brande com a ameaça de novas comissões parlamentares de inquérito. Em meio a tudo, sempre o agir dos petistas, como que paladinos de virtudes morais, como adeptos de um partido acima de qualquer suspeita, sempre se sentiram à vontade para incriminar os outros, com ou sem razão.
Em política tal atitude, de um maquiavelismo irrepreensível, seria até normal se o PT não tivesse criado algumas lendas a seu respeito, e conseguido com perfeição incutir seu aspecto lendário na opinião pública. Entre as lendas estão a honestidade sem mácula dos petistas, a transparência de suas ações, a defesa intransigente dos pobres e humilhados, a arte de governar com sucesso. Tudo isso é reforçado pela figura mitológica de Lula, o superstar do PT que simboliza o trabalhador em sua pureza, o metalúrgico que vive de parcos recursos, o homem simples que chega a ser simplório, o revolucionário meio Zapata meio Fidel Castro pronto a resgatar a justiça social no Brasil.
Quanto a Luiz Inácio Lula da Silva, em que pese sua importância como líder sindical na década de 70, os que têm um mínimo de compreensão da vida e da política podem perceber que: há muito tempo ele não trabalha; vive uma existência que não é exatamente de quem vive de poucos recursos; não pode ser classificado exatamente como um homem simples do povo, apesar de ser às vezes um tanto simplório em suas manifestações verbais; de Zapata, muito remotamente herdou o incitamento aos sem-terra nas invasões, e de Fidel Castro apenas copiou a barba e o gosto por charutos cubanos.
No tocante ao partido como um todo, as lendas deixam muito a desejar para mentes mais atiladas. Naturalmente, existem no partido muitos idealistas e muita gente boa. Mas há tempos venho dizendo que o PT é um partido como os outros, inserido na nossa cultura e praticante muitas vezes da ética da malandragem, como pode ser exemplificado no caso Vacarezza, devidamente esquecido no mais autêntico estilo das CPIs.
Agora as coisas se complicaram. As recentes denúncias do ex-guerrilheiro e petista Paulo de Tarso Venceslau com relação à contratação da CPEM por prefeituras petistas põem em xeque as lendas do PT. E não basta Lula, num gesto teatral, se afastar da direção nacional do partido, arrogando-se exemplo para o ministro Sérgio Motta e o ex-governador Paulo Maluf. Tão pouco é suficiente esbravejar e chamar o ex-guerrilheiro de doido. Se Lula ainda quer se candidatar à presidência de República, e se o PT quiser manter a fama de puro, deverá ir fundo no esclarecimento das denúncias. É o mínimo que se espera dos que até hoje acusaram, talvez por se considerarem diferentes.


