O PT deu marcha à ré - Mirian Guaraciaba
O PT deu marcha à ré
Mirian Guaraciaba
Se falta alguma explicação para a marca ou teto dos 30% na preferência do eleitorado, permitam-me: o PT não passa disso, em termos de Brasil, porque não supera suas contradições. O discurso não é apenas radical, na maioria dos casos. Está carimbado pela incoerência. Não transmite segurança. A tese foi reforçada nos últimos dias. Mais uma vez, o PT viveu situações absolutamente antagônicas, contraditórias. Sobretudo, reveladoras. Decididamente, o PT trabalha contra o PT.
Nos encontros regionais, realizados em todo o País, o partido insistiu no comportamento primário de lavar roupa suja em público, assustando o eleitorado que não é petista de carteirinha, mas tem simpatia pelo movimento dos trabalhadores, gosta da bandeira.
Os frutos dos desentendimentos virão mais cedo que se imagina. Se o eleitor desaprova cenas explícitas de fisiologismo, brigas e disputas internas que enfraquecem o partido, há políticos insatisfeitos com a incoerência de seus dirigentes ou a falta de rumo partidário.
O governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, documentou a dubiedade em carta ao presidente da República. Quis justificar sua ausência na reunião dos governadores com Fernando Henrique Cardoso, cujo tema foi previdência, enquanto mantém, no governo gaúcho, a cobrança da contribuição dos inativos.
Olívio alegou que a reunião convocada por Fernando Henrique adquiriu caráter de disputa política. Como seus colegas do Acre e de Mato Grosso do Sul, submeteu-se à proibição partidária. De Brasília, ou de São Paulo, a cúpula do PT diz como devem se comportar seus governadores.
Prova incontestável de que os líderes ignoram o funcionamento da máquina administrativa, a medida repete velho cacoete do PT. Defeito que prejudicou gestões históricas, como a de Luiza Erundina, em São Paulo, e Cristovam Buarque, em Brasília.
O governador Anthony Garotinho fez questão de lembrar o fato ao indicar a porta da rua para o PT do Rio. Irritado com a pressão dos petistas, Garotinho chamou o PT de partido da boquinha e declarou: Não farão comigo o que fizeram com Erundina e Cristovam. Garotinho é do PDT. Por isso, um pouco mais independente.
Quem proibiu a participação dos governadores na reunião de Brasília foram os mesmos que convidaram o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, para defender seu projeto contra a miséria, em seminário organizado pelo partido.
A incoerência foi anotada. Ouvir Antonio Carlos pode. Fernando Henrique, não. Por uma e por outra, sobraram críticas. Tucanos chamaram o partido de sectário. Fernando Henrique lamentou a falta de visão. Ronaldo Lessa, governador de Alagoas, pelo PSB, também bateu duro. Até o PT não perdoou o PT.
- MIRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília





