Há três semanas emergiu do lamaçal da política de Brasília a fita de vídeo em que o ex-diretor financeiro da Associação dos Servidores da Fundação Educacional (Asefe) diz ter ajudado irregularmente, em 1998, campanhas de políticos da oposição local. Prato de resistência de uma boa reportagem sobre o submundo da política paroquial, a denúncia poderia ter sido reduzida a uma briga de comadres se os denunciados – Cristovam Buarque, Chico Vigilante e Wasny de Roure, principalmente – tivessem reagido à altura de suas biografias. Não reagiram. Adotaram inexplicável comportamento de primas donas. Assim, viraram reféns de franco-atiradores.
Os vetustos petistas que se consideravam inatacáveis têm muito a perder só por frequentarem o noticiário ao lado de uma turma escolada em enxovalhar a honra alheia. No lugar de se livrarem da lama, emergirem do pântano e explicarem ponto a ponto o porquê de ser impreciso pôr seus nomes figurando na lista da corrupção que marca o jogo eleitoral local, eles oscilam entre o comportamento de avestruz e a verborragia indignada. Isso não os levará a lugar algum. Todos, Cristovam inclusive (ou sobretudo), sabem que campanha não se faz com filantropia. Todos, Cristovam inclusive (ou sobretudo), sabem que há uma asquerosa briga sindical a tragar a esquerda brasiliense. Quase todos, por fim, aceitaram esquecer o asco e compor com o grupo do sindicalista Marcos Pato na formação do diretório do PT no DF.
Cristovam foi exceção. Voto vencido, isolou-se. Acreditou que poderia fazer apenas ‘‘política nacional’’. Não pôde. Jamais poderá. Agora, com a ascensão do lodo à ribalta do debate eleitoral, o ex-governador que inventou o Bolsa-Escola – o mais bem-sucedido programa social brasileiro – pondera a possibilidade de assistir ao ano de 2002 passar sem disputar um mandato.
A denúncia de financiamento irregular de campanha precisa ser investigada a fundo – e não será uma Câmara Legislativa inepta e ideologicamente enviesada que conseguirá essa proeza. Mas, por enquanto, a CPI distrital é o foro adequado para isso. O PT não pode se insurgir contra ela. Agir assim é manchar a história do partido.
Cristovam Buarque, mais do que qualquer outro denunciado, deve explicações que desmontem as denúncias. Ele não as deve a Marcos Pato, mas à sociedade. Voto é propriedade inalienável do cidadão e não pode ser dado sob suspeita. O PT brasiliense teceu uma rede de intrigas e suspeitas. Com ela, fisgou o único exemplar da espécie que, nadando nas turvas águas da política local, poderia mudar a agenda do debate nacional. Cristovam pouco faz para se livrar da suspeição. Com arrogância, o PT de Brasília não irá a lugar algum. Mais que isso, embaça a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva, que aprendeu a se constranger quando vem à capital da República. Lula crê que seu projeto é maior e melhor que esse apodrecido sindicalismo oficial daqui.
- LUÍS COSTA PINTO é jornalista em Brasília

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