O PT ainda amedronta?
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domingo, 02 de setembro de 2001
René Ruschel 
A estratégia do Planalto em relação à sucessão presidencial parece clara neste momento: o candidato dos sonhos do presidente Fernando Henrique Cardoso chama-se Pedro Malan e o adversário tido como ideal num segundo turno é Luiz Inácio Lula da Silva. Se as pesquisas estão corretas, como parece, um fato já está consumado: Lula é presença certa no segundo turno. Resta saber quem será seu adversário e, neste caso, se o ministro Pedro Malan tem fôlego para chegar lá.
O raciocínio oficial baseia-se no fato que o PT amedronta. Mais: acredita-se que na hora de decidir entre Lula ou ''fica como está'', a postura do eleitorado verde-amarelo continuará conservadora. Embora negue, o ministro Malan nunca esteve tão candidato. Suas declarações têm sido nitidamente de caráter político, batendo de frente com o PT e procurando mostrar seus indiscutíveis conhecimentos teóricos. Ele não se aventura, por enquanto, a levar adiante os temas de natureza partidária ou mesmo do varejo político, assim como evita debater questões sociais. Consciente, Malan caminha numa trilha que conhece e domina como poucos. Quer deixar sua marca e ser o diferencial.
Em 1989, quando disputou e perdeu o segundo turno para Collor de Mello, Lula foi massacrado pelos empresários de todo naipe, pela classe média e até mesmo por setores da imprensa. Ou seja, a dita elite nacional temeu e tremeu que pudesse ocorrer naquele momento qualquer tipo de mudança. O então presidente da Fiesp, Mario Amato, apregoava a fuga em massa de empresários da mesma forma que o diabo corre da cruz; a classe média temia uma invasão dos sem-teto, sem-emprego, sem-esperança, nos apartamentos e casas e o grande latifúndio via no Movimento dos Sem Terra a encarnação dos cavaleiros do apocalipse.
Em 94, o Plano Real carimbou o passaporte de FHC no primeiro turno; em 98, com a promessa de consolidar o desenvolvimento econômico e social, a alternativa seria reconduzir o sociólogo ao Planalto. E assim foi feito. Mas agora, o PT lidera as pesquisas, as oposições estão divididas e o candidato oficial, mesmo sem o nome definido, parece encarnar a insatisfação coletiva da sociedade. Daí a questão: o PT ainda amedronta?
Sim, amedronta. Principalmente uma parcela minoritária da sociedade que não quer perder o ''status-quo'' e insiste na tese que, na dúvida, é melhor permanecer tudo como está. Até mesmo porque ''como está'' está bom para eles, obviamente.
Na última década, o PT evoluiu e passou a encarar o chamado mundo globalizado de outra forma, mas ainda permanecem alguns ranços ideológicos, uma espécie de romantismo anacrônico que acaba conduzido o partido a posições sectárias e de difícil consecução prática. Não significa, contudo, que o PT no poder irá transformar o Brasil num paraíso de justiça social.
A experiência tem demonstrado que as administrações municipais e estaduais petistas não conseguiram avançar na mesma proporção do discurso. No entanto, também não há registros de invasões de casas ou guerrilha rural.
O que o PT terá de entender é que algumas questões fazem parte de um contexto mundial e não podem ser avaliadas por um prisma meramente ideológico ou partidário. Da mesma forma que administrar uma prefeitura pode até ser mais importante às populações carentes, uma vez que o reflexo de suas ações age diretamente no dia-a-dia de cada cidadão, a complexidade à gestão federal exige uma postura capaz de compreender o sistema econômico e financeiro em seu espectro mais amplo, com suas variáveis e interferências na vida política e social de cada nação.
Mas a grande conquista ao longo das últimas décadas é que o Brasil adquiriu uma maturidade democrática suficientemente capaz de imunizá-lo dos discursos golpistas. O País é livre para escolher seu destino. Grande parte dos eleitores não sabe ainda o que quer, como quer e muito menos quem atenderá seus anseios. A única certeza é o sentimento generalizado de que é preciso mudar este quadro de injustiça social que se agrava cada vez mais. Quem será o timoneiro, é uma outra questão.
- RENÉ RUSCHEL é jornalista e economista em Curitiba
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