O protesto da professora Eulália
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sexta-feira, 12 de julho de 2002
René Ruschel 
Tomada por uma profunda indignação, a professora Eulália Moura Duarte, de Cruzeiro do Oeste, lança um manifesto que, certamente, seria engrossado por centenas ou milhares de outros mestres. O desabafo solitário foi dado em forma de um artigo publicado no jornal ''Umuarama Ilustrado'', de Umuarama, na edição do último dia 10 e na coluna Página do Leitor, desta Folha, no dia 11, que ela chamou de ''Sem os Cem Reais''. No texto, ela questiona porque os professores inativos do Estado foram ''excluídos de um abono de cem reais?''. E reitera: ''Deixamos de ser mestres? Transformaram-nos em párias da sociedade?''. O desafogo da mestra serve não penas como uma súplica dos educadores, mas de toda sociedade. Na verdade, trata-se do clamor mais profundo vindo de alguém que, após anos de dedicação profissional, somada ao amor incondicional à causa, se sente atingida no âmago pelas injustiças sociais que o sistema provoca nos menos favorecidos.
Não há como negar que, no Brasil, poucas atividades são tão mal remuneradas como os professores, notadamente do ensino público. Por outro lado, dada a deficiência histórica com que os governantes têm se dedicado à educação, não apenas na questão salarial, mas no sistema educacional como um todo, a tarefa de ensinar se transformou numa espécie de apostolado. Aliás, neste artigo, ela cita as dificuldades enfrentadas ao longo da vida ativa nas escolas. As benfeitorias do ensino público têm sido lembradas apenas às vésperas de eleições, quando gráficos e dados estatísticos alardeiam as vantagens concedidas em anos anteriores, que não são vistas ou sentidas na rotina das escolas tanto por pais como servidores. Mas dois fatos são irrefutáveis: os salários dos professores da rede pública, pela importância da função, são baixíssimos, assim como o nível de ensino é sofrível. A rigor, uma coisa está atrelada à outra: pela péssima remuneração que recebem, não só falta ânimo para que se dediquem com mais afinco, afinal, há casos onde os professores são obrigados a dividir a função em atividades paralelas a fim de engrossarem o orçamento familiar, como deixa de encorajar milhares de jovens a seguirem a carreira do magistério. Por conseguinte, a qualidade do ensino é deficitária e os resultados estão à mostra.
Toda uma geração, até os anos 70, foi alfabetizada e educada em escolas públicas. A partir daí o país assistiu uma transmutação no sistema educacional, inclusive com a adoção de uma política oficial que parecia querer privilegiar de forma deliberada as escolas privadas e que culminou com o início da decadência do ensino público. Sob o pretexto de sucessivas crises econômicas vividas nos anos 80 a chamada década perdida , além do amparo legal aos contingenciamentos orçamentários, os governos passaram a sustar recursos sem critérios que levassem em conta a educação como base de formação social de uma Nação. Ao contrário dos países desenvolvidos, no Brasil a educação foi uma prioridade muito mais teórica que propriamente de fato, destas que servem apenas para rechear programas de governos, haja vista que os índices de repetência ou evasão escolar foram sempre altos, assim como do analfabetismo. No entanto, é preciso reconhecer que no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso houve uma sensível melhoria no que diz respeito à frequência de alunos ao ensino fundamental, o que não significa que tenha se dado o mesmo em relação a qualidade. Não é mera coincidência que a violência e a criminalidade tenham crescido de forma assustadora a partir destes mesmos períodos.
Certamente que o argumento do governo do Paraná em relação ao pedido dos professores inativos é que o orçamento do Estado não suporta mais qualquer despesa adicional. Pode ser até compreensível e lógico. Porém, foi exatamente a falta de critérios e prioridades que levou o ensino público ao estágio de falência quase total e absoluta, acrescido de todas suas mazelas. Pediria permissão à professora Eulália para incluir em seu manifesto mais uma pergunta: afinal, governador, quanto custa a ignorância?
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba


