O professor e o gari
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de junho de 2003
Davrison de Abreu Anselmo 
Desde pequeno ouvia de meu pai e de meu avô: não importa a tua profissão, mas a dignidade que empregas na sua execução; não importa ser um doutor, um lavrador, importa sim, dar o melhor de si, fazer da melhor maneira possível; não buscar reconhecimentos externos mas internos; não fazer para os outros, mas pelos outros. Entre outras máximas conhecidas dos mais velhos e, partindo de quem partiu, é lógico que fiz desses conselhos minhas máximas também.
Bem, acabei crescendo e a vida me levou ao exercício sacerdotal do magistério, profissão à qual amo e exerço com todo afinco e dedicação, às vezes, abdicando, de minha própria existência em prol da carreira que abracei e que jamais pretendo deixar (tenho certeza que meus queridos, que daqui já se foram, ficariam muito felizes em saber disso).
Recentemente fui aprovado no concurso público para o cargo de professor de nosso Estado. Estudei. Li quase toda a bibliografia recomendada. Resolvi centenas de exercícios. Mas recebi a recompensa à qual almejava: a aprovação. Senti-me muito feliz. Muito lisonjeado. Ego massageado. Mais uma vez voltei o pensamento aos meus queridos e com toda certeza do mundo, de novo, ficariam felizes. Seu filho ouviu os bons conselhos e os seguiu e, por isso, é um homem realizado e vitorioso, honesto e competente, bom profissional, dedicado professor e, em consequência, um ser de primeira categoria: porque ama o que faz e o faz com decência.
Entre um ''hip hip hurra'' e outro, o que me chamou a atenção foi a notícia de um concurso de garis que será realizado no Rio de Janeiro, cujo salário inicial é de aproximadamente R$ 610,00 e praticamente não se exige escolaridade. Novamente reavivei o pensamento quanto aos ditos de meus ancestrais. ''Seja competente naquilo que se propõe a fazer e assim serás um ser realizado''.
É lógico que se eu fosse um gari, assim também agiria, procuraria sempre ser o melhor, o mais competente, o mais preocupado com a limpeza de meu setor, salvando os bueiros de serem entupidos, evitando enchentes, em consequência salvando vidas, seria dedicado, trabalharia com amor, etc, etc, etc... Mas, eu resolvi ser professor, e o que me entristece é que estudei durante muitos anos, do jardim ao lato sensu e, quando aprovado em um concurso onde se exige, no mínimo, licenciatura plena, ou seja, formação universitária completa, como prêmio receberei um salário de R$ 385,00.
Podem até me mandar participar do concurso de garis (profissão que não deixa de ser menos nobre que qualquer outra) para que meu ganho seja maior, mas a profissão que escolhi foi a de ensinar a se retirar os ciscos dos olhos para que se enxerguem as injustiças e, por isso, acredito que mereço um salário melhor.
DAVRISON DE ABREU ANSELMO é professor em Ibaiti


