Com este mesmo título, o Citigroup Asset Management traz em seu boletim de análise deste mês um texto justificando que, ao contrário do que se propaga, as raízes da crise econômico-financeira no Brasil não é a dívida pública, mas a taxa de risco cobrada no mercado global. A questão é que há uma inter-relação entre estes fatos, o que acaba formando um círculo vicioso cujos desdobramentos provocam uma série de atribulações no conjunto da economia verde-amarela. Segundo o documento, a dívida pública brasileira não é alta - ou relativamente alta.
De acordo com os dados do Banco Central, em abril, a dívida líquida do setor público era de R$ 684 bilhões, o que representa cerca de 55% do nosso Produto Interno Bruto (PIB). Com estes números, o Brasil ocupa a 24ª posição no ranking dos 40 países monitorizados pela instituição em todo o mundo, estando à frente do Japão, com uma dívida interna de 130% do seu PIB; seguido da Itália, com 111%, e do Canadá, com 105%. Países como a Turquia, Equador, Israel e Indonésia apresentam um perfil da dívida pouco acima dos 100%. Na mesma linha do Brasil, entre 50% e 60% do PIB, estão Alemanha, Estados Unidos, Inglaterra e Tailândia; enquanto abaixo se encontram México, Polônia, Coréia do Sul, Colômbia e Dinamarca.
Ainda de acordo com os analistas, além da situação ‘‘absolutamente confortável’’ - pelo menos para os padrões internacionais - o Brasil tem tido superávits primários, desde 1999, acima de 3% do PIB. Entretanto, mesmo assim, a dívida interna não pára de crescer. Em julho de 1994, quando do lançamento do Plano Real, ela estava na casa dos 33% do PIB; ao final de 1998, representava 42% e, em 1999, com a desvalorização do real atingiu os índices de 49%. Em 2001 ultrapassou a barreira dos 53% e hoje está em 55%. O xis da questão, segundo o documento, está na taxa de risco cobrado dos países emergentes, que refletem no custo globalizado dos juros, que, por sua vez, explodem no mercado interno, ou seja, no bolso do consumidor.
Daí ser possível entender, também, as razões que levam as agências internacionais a piorarem cada vez mais o chamado risco-Brasil, afinal, quanto maior o risco maior a taxa. Estas taxas de risco elevadas deságuam em taxas de juros, em dólar, também altas, que, por conseguinte, se transformam em juros reais exorbitantes. Para se ter uma idéia, o Brasil vem pagando uma taxa de cerca de 9% ao ano no mercado internacional. Nos Estados Unidos, desde 1947, a taxa de juros real média é pouco acima de 1%.
Agora, o Brasil começa a ser considerado a ‘‘bola da vez’’. As razões seriam a dívida interna e as eleições presidenciais. Aliás, esta deve ser a enésima vez que o País é classificado pelos bancos e organismos internacionais como candidato potencial à derrocada. A classificação do Brasil só perde para Argentina e Nigéria. Mas não há nenhuma razão explícita que justifique tamanho nervosismo. O que pode ser considerado é a questão eleitoral, afinal, o discurso do candidato Luiz Inácio Lula da Silva, que lidera com folga as pesquisas eleitorais, não traduz com exatidão o que poderá ocorrer a partir de janeiro de 2003, caso vença as eleições. No entanto, também não disse absolutamente nada que possa amedrontar os investidores.
O temor é que a histeria especulativa possa abreviar o caos, inclusive com a bomba sendo detonada no colo do governo FHC, por culpa do próprio mercado. Aliás, uma frase do economista-chefe do Loyds TBC, Odair Abate, traduz muito bem esta situação ao afirmar que ‘‘o mercado acabará sendo seu próprio Lula’’. Ao PT caberia, neste momento, tomar a dianteira na discussão do tema e dizer o que pretende, caso Lula seja eleito, afinal, a responsabilidade pelas ações futuras não pode esperar a posse do novo presidente.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba

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