O problema e a solução, em cada um
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 27 de agosto de 1997
Walmor Maccarini 
O noticiário dos veículos de comunicação ocupa grandes espaços para falar de tragédias humanas, mas tão piores quanto elas são certas propostas de solução, porque poucas vezes estribadas no bom senso e sim na ira e na vingança. Então o mal nunca termina, porque realimenta-se de si mesmo.
Os males do momento são as invasões dos sem-terra, a quebra da Encol, o racha que matou a jovem em Londrina, os juros altos dos bancos e aqueles permanentes que são a corrupção dos políticos, a onda dos delitos contra o patrimônio, a violência do trânsito, a má educação, o desemprego e a inqualificação profissional, a gastança dos Poderes Judiciário e Legislativo nos altiplanos brasilienses, o empreguismo governamental, o abarrotamento das prisões, os meninos-de-rua, as drogas e a pouca espiritualidade das pessoas.
Como dissolver tudo isto? Pela consciência de cada um. Não há outro caminho. Não será com pena de morte, com os rigores da lei, com manifestações públicas impregnadas de ódio e desejo de vingança, porque isto será nutrir os males com males idênticos.
O jovem que pratica os rachas, inspirado pelas competições ditas esportivas que vê na televisão, identifica seu poder individual vestindo-se com a couraça do automóvel. A potência da máquina faz por ele. É preciso então ensinar-lhe as leis dessa máquina a partir do curso primário, porque ele chega à adolescência sem saber nada sobre o poder do veículo, do estrago que é capaz de gerar se mal domado, do respeito que deve ter com os semelhantes, mas é nesta idade que o pai já lhe dá ou uma moto ou um carro. O policiamento não foi instruido para aplicar multa por velocidade, então correr é livre. E se temos (no papel) limites de velocidade no perímetro urbano e nas estradas, por que fabricam carros tão potentes e velozes? Por que a propaganda dos veículos exalta tanto o arranque e a velocidade?! Não são jovens os que regem o fabrico dos motores, mas capitães de empresas já bem avançados em idade. Então, não há diferença entre esses homens e os meninos que praticam os rachas. Os jovens servem-se dos inventos dos adultos (aí incluídas as drogas) e transformam-se em suas vítimas. E aí os adultos os condenam.
Casos como o da Encol acontecem não é de hoje, mas só agora se começa a pensar num seguro que ampare o mutuário.
Os sem-terra são na maioria oportunistas, que nem sabem bem o que querem mas se incorporam à marcha, porque ouviram o galo cantar que há terra para eles, que basta invadir e tomar posse, porque os comandantes da tropa disseram que é assim. O governo, de sua vez, retarda as soluções que estão ao seu alcance e, se não faz a tão decantada reforma agrária, também nunca se ocupou de uma reforma agrícola e de uma política para o campo, estas sim mais urgentes que aquela, porque contemplariam os que já estão na terra. Nem uma legislação trabalhista para o meio rural existe.
Os bancos são utilitários que teriam utilidade real se não fossem especuladores, mas, não bastasse a já natural ganância deles, é das autoridades monetárias a diretriz para manter os juros altos, temerosas de uma corrida ao dinheiro barato e de consequências supostamente inflacionárias, mas com isto a empresa e o cidadão endividados se ferram.
Juros de especulação financeira, embutidos nas compras a prazo, são um delito tão grave como o dos jovens que fazem rachas e matam.
A corrupção dos políticos é mal incurável. Só a escola e o exemplo da família produzirão políticos melhores, que serão moldados a partir da adolescência. E junto com o corruptor sempre está a contrapartida de um de nós.
Os desatendimentos da saúde seriam resolvidos se o governo desativasse metade de seus efetivos burocráticos e fechasse igual quantia de suas repartições, repassando o dinheiro para a saúde e para o ensino; e se os planos de saúde fossem mais escrupulosos em seus propósitos e não contemplassem só as doenças previsíveis, como a febre e a dor de barriga...
O empresário também é no mais das vezes injusto com os empregados e estes são irresponsáveis perante a empresa e eles próprios, porque pensam muito pouco em melhorar sua qualificação mas estão sempre de olho na indenização trabalhista. E o governo, com os pesados encargos sociais, pune aquele que aguenta o tranco de ter uma empresa e que dá emprego.
O policial despreparado e mal pago é corrompido pela mão que lhe estende o suborno.
O contribuinte sonega o imposto, certo de que o governante fará mau uso do dinheiro arrecadado, então tudo se sustenta na desconfiança.
O industrial só se preocupa com a qualidade de seu produto quando pressionado pela concorrência, e não por respeito ao consumidor. Com esta mentalidade, dificilmente terá sucesso, porque movimenta-se pelas rodas que operam as energias das esquerdas.
Por aí se vê que os problemas e as soluções são de responsabilidade de cada um. Não melhoraremos o Brasil se não começarmos a melhorar os brasileiros. Que são cada um de nós. Os brasileiros são os maiores críticos dos brasileiros, porque brasileiros são sempre os outros...
O processo de recuperação da consciência perdida é longo, porque não ficaremos santos-homens por decreto. Nem todos os rigores da lei serão suficientes. E nem todas as cadeias, até porque faltará gente para fechar, por fora, tantos cadeados...


