O problema do transporte rodoviário - Moacyr Servilha Duarte
O problema
do transporte
rodoviário
Moacyr Servilha Duarte
A recente greve dos caminhoneiros deixou explícita a grave crise pela qual passa esse setor como consequência da queda no valor dos fretes, provocada pela reestruturação econômica do País. Embora sua reclamação tenha incluído o preço do pedágio e do combustível, não é essa a raiz dos problemas. Vamos analisar melhor os fatos.
O preço do frete rodoviário caiu nos últimos anos em decorrência de vários fatores. Destacam-se, entre eles, o aumento da competição no setor, as mudanças no fluxo de mercadorias com o crescimento das importações, a redução da atividade econômica e a competição com outros modais de transporte que estão se organizando (ferroviário, navegação de cabotagem, hidroviário).
Com esse cenário de fundo, os transportadores de carga acabam trabalhando com valores abaixo de seu custo real. Este problema afeta particularmente os caminhoneiros autônomos o setor menos estruturado que dificilmente têm condições para calcular e repassar seus custos efetivos.
Naturalmente, suportar os aumentos sucessivos de combustível, peças, pneus, serviços etc. torna-se difícil, para não dizer impossível.
Na verdade, o peso do combustível varia entre 10 e 20% do custo operacional do veículo, dependendo do tipo e da rota considerada. E o diesel usado pelos caminhões custa no Brasil cerca de 40% da gasolina. Nos Estados Unidos e na Europa, essa diferença praticamente não existe.
Diversos estudos dos custos operacionais indicam que se deve observar outras questões para se fazer um correto dimensionamento econômico da situação dos caminhoneiros no Brasil. É preciso levar em conta, por exemplo, a remuneração do capital e a depreciação do veículo itens pouco observados no dia-a-dia, mas muito mais significativos do que os custos diretos de manutenção, combustíveis, pneus, licenciamento ou pedágio.
Uma pesquisa recente do Banco Mundial mostra que, por não considerarem esses aspectos, a maioria dos profissionais autônomos não terá condições de comprar um novo caminhão ao término da vida útil do seu atual veículo.
Os estudos realizados no Brasil nos últimos anos mostram quase sempre uma relação custo-benefício favorável entre o dispêndio com a tarifa de pedágio e as economias resultantes das melhorias nas rodovias. Os dados do IPEA, por exemplo, indicam que a estrada, ao passar de boa para ruim, aumenta em 38% o custo de manutenção, em 58% o consumo de combustível, em até 100% o tempo de viagem, além de aumentar significativamente o nível de acidentes, trazendo naturalmente menor segurança aos usuários.
Também os estudos da empresa Tectran, em rodovias dos Estados de Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul, e análises realizadas pelo Laboratório de Sistemas de Transporte (Lastran) da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), mostram que na quase totalidade dos trechos e dos tipos de veículos avaliados, apesar do pagamento do pedágio, há um ganho no custo operacional total dos caminhões.
- MOACYR SERVILHA DUARTE é presidente da Associação Brasileira de Concessionárias de rodovias (ABCR)





