O privilégio de ser londrinense - Alex Beltrão
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de maio de 1999
Alex Beltrão 
A história caprichosa nos une aqui em Londrina um pouco pelas mãos da sorte e outro pouco pelo engenho e pela arte dos amigos. O engenho e a arte vêm daqueles que com carinho e generosidade sugeriram, propuseram e votaram a concessão desta nobre honraria de fazer-me cidadão honorário de Londrina. A sorte vem da coincidência entre honrarias e a realização deste notável 3º Seminário Internacional de Biotecnologia na Agroindústria Cafeeira, que uniu aqui em Londrina tantos amigos do mundo da ciência e da tecnologia, devotos e dedicados lutadores pela melhoria desta extraordinária bebida.
Voltei ao Paraná há mais de quatro anos, depois de 30 anos de vida no exterior em total envolvimento com a economia cafeeira em todos os seus aspectos e geografia. Retornei para trabalhar ao lado deste admirável paranaense, o governador Jaime Lerner que, em ato arriscado e temerário, convocou-me para participar de sua equipe de governo. Passei quatro anos à frente da Secretaria responsável pela Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Não satisfeito, nosso bom amigo governador Lerner me convoca agora para coisas ainda mais esdrúxulas: responder pela pasta de Estratégia de Governo.
A mistura de amizade, saudade, carinho, passado, presente e futuro torna difícil expressar bem o que me vai aqui por dentro. São poucos os que receberam os privilégios que desfrutei e ainda desfruto nos dias de hoje. A poucos é concedido o privilégio de ver nascer e prosperar uma cidade. A um número ainda menor, o prazer de participar desta aventura. Assim me sinto quando penso, vejo, rememoro e convivo com esta magnifica cidade de Londrina.
Este título muito me honra. Convivi com a criação de Londrina, uma cidade pensada, projetada e implantada em tempo curto; uma cidade projetada para a eficiência e destinada desde o seu nascimento ao sucesso que, através do trabalho de seu povo, foi continuamente se materializando. Os projetistas ingleses, enervados pelos insucessos do império prestes a terminar, tentaram criar aqui um monumento emocional, uma última fronteira, uma cidade aristocrática. Trouxeram seu príncipe para a inauguração. Deram-lhe o nome da sua capital orgulhosa e magnífica, ajustando o nome para que no feminino espelhase melhor o que lhes ia na alma. Eram poucos e ficaram pouco. Coube a nós sucedê-los.
A penetração do café na região chamada Norte Novo não foi rápida. A crise mundial de 1929 derrubou os preços do produto e o governo da chamada República Velha. O otimismo que antecedeu o crash da Bolsa de Nova York levou os preços de café a níveis estimulantes e à criação de enormes estoques excedentes de café. Segue-se a criação do Departamento Nacional do Café, no Brasil, e à queima de estoques cafeeiros. Mas o Paraná respondeu às dificuldades com safras enormes.
Neste período, cria-se no Brasil o Instituto Brasileiro do Café (IBC). Em 1962, é criada pelas Nações Unidas a Organização Internacional do Café (OIC) com sede em Londres, responsável pela regulação das exportações, gestão de excedentes e promoção do consumo. Dela participavam também os países consumidores.
Inicialmente como estudioso e analista, segui as políticas cafeeiras internacionais. Entre os anos de 1964 e 1967, foi-me deferida a incumbência de participar diretamente destas definições como diretor do Instituto Brasileiro do Café, em Nova York, e de 1968 em diante, como diretor-executivo eleito da Organização Internacional do Café, sediada em Londres. Neste posto permaneci por 26 anos, até 1994.
Mas meus contatos com Londrina e com o Paraná se mantiveram fortes; a economia cafeeira continuou a ser a viga-mestra da economia brasileira e paranaense, e também a financiadora das atividades diversificadoras da economia regional. A construção do Iapar (Instituto Agronômico do Paraná) - iniciativa de lideranças londrinenses - contou com forte apoio da OIC, que então aplicava fundos de diversificação, visando a diminuir a dependência de economias nacionais e regionais das incertezas de um só produto, o café.
O papel do Norte do Paraná na história do café é dramático e histórico; o drama vem da enorme frustração com as perdas cafeeiras e a pressão na busca de alternativas; a história é o registro do sucesso na reversão de um migração extrativista e a consolidação de uma economia ainda em busca de estabilidade através da diversidade.
Os historiadores dirão que para aqui vieram homens e mulheres enérgicos, determinados e otimistas que encontraram uma natureza fértil e cooperante; dirão que esta simbiose gerou uma sociedade audaciosa e empreendedora que ainda está longe de completar sua tarefa. A tecnologia e o capital vêm ajudando, mas o centro motor está no povo, um povo que parece ter selecionado a parte boa de cada etnia, criando gente que sabe trabalhar em equipe, e que tem o espírito inquisitivo e o prazer dos novos desafios.
O café renasce no Paraná, voltou com roupagem nova, com tecnologias adaptadas às condições da terra; os homens de café de hoje são empresários com cabeça fria e conscientes de riscos e vantagens da lavoura; novas técnicas e novos equipamentos e métodos buscam assegurar melhor qualidade do produto, maior ajuste às condições regionais e maior produtividade. É para mim um prazer testemunhar este renascimento.
Partilho desta oportunidade com o engenheiro Beltrão, Alexandre Gutierrez Beltrão, meu pai, fundador de Ibiporã, Tamboara e Engenheiro Beltrão, duas vezes prefeito de Curitiba e que, quando jovem, passou meses embrenhado na floresta virgem demarcando as terras que seriam colonizadas pela Paraná Plantation, rebatizada Companhia de Terras Norte do Paraná. Ele viveu e morreu entusiasta e confiante no futuro do Paraná, e especialmente de Londrina, onde morou com sua mulher, Dona Cornélia, e criou três dos meus irmãos. De forma diversa contribui também.
A cidadania honorária é, entretanto, repartida com quem me transmitiu o amor por este rincão.
- ALEX BELTRÃO é secretário especial para Assuntos Estratégicos do Paraná


