Cidadezinha típica do Interior do Brasil, lá pelos idos de 50 ou 60. Esbaforida, com os dois filhos pequenos a tiracolo, a dona de casa chega na acanhada venda do Joaquim na hora do almoço.
- O que vai ser hoje, dona Marcelina? - vai logo dizendo o comerciante.
- Faltou sal lá em casa, seu Joaquim - foi a resposta da dona de casa. Também vou pegar uns tomates, que é para fazer um belo molho para a macarronada. Põe na conta!
- Tem problema não. A gente vê isso depois, dona Marcelina. Aproveita e leva alface junto para a salada. Está fresquinha!
Que me perdoem os entusiastas da formalidade preconizada pela cartilha neoliberal em vigor nas sociedades capitalistas deste final de século, mas tempo bom mesmo era esse, no qual se comprava e se vendia na base do ‘‘fio do bigode’’. Não que eu preferisse fazer compras desta forma. Muito pelo contrário. Sou do tipo que sempre pagou suas contas em dia. Digo isso apenas porque tenho a sensação de que, naquele tempo, as pessoas pareciam confiar mais umas nas outras. E isto valia tanto para o pequeno comerciante da esquina como para o sisudo gerente do banco, no centro da cidade.
Reporto-me a estas distantes reminiscências pensando em uma interessante notícia publicada por um dos jornalões brasileiros, na primeira quinzena do mês. O jornal informa que nada menos de 15 das 51 medidas do pacote fiscal, anunciado pelo governo em 10 de novembro do ano passado, continuam solenemente arquivadas nas empoeiradas gavetas dos Ministérios da Fazenda e do Planejamento. E mais. Das 36 medidas que repousam nos arquivos do governo, uma delas é o projeto que aumentaria a tributação sobre os bancos. Outra, adiada por conta de fortes pressões comandadas por líderes de partidos aliados ao governo na Câmara e no Senado, reduz os incentivos fiscais pela metade.
Isto é não tudo, porém. Ainda de acordo com o jornal, as únicas medidas que caminharam celeremente desde o lançamento do pacotaço de novembro foram as que determinaram aumentos de preços (dos derivados de petróleo e do álcool) e impostos (as novas alíquotas do Imposto de Renda de Pessoa Física e do Imposto sobre Produtos Industrializados que incide sobre automóveis e bebidas). Neste caso, os burocratas do governo trataram de agir rapidamente. O aumento dos preços entrou em vigor logo depois do anúncio do plano; o do IRPF, em 1º de janeiro deste ano.
Acho até compreensível - por mais difícil que seja engolir tamanho disparate - a intenção do governo de não executar de imediato todas as medidas anunciadas no pacotaço de novembro. Talvez Pedro Malan e sua equipe pensem que medidas econômicas sejam como pipa nas mãos de hábil criança, cuja linha se solta aos poucos, dependendo dos humores do vento. Só me surpreendo, porém, com a decisão do governo de colocar em prática justamente as medidas mais onerosas e prejudiciais à classe média e assalariados em geral.
Ao invés de aumentar de cara o IRPF, senhores ministros, por que não se tratou de tributar logo os bancos? Por que, ao invés de ceder aos apelos dos aliados, este governo não teve a coragem de bloquear os incentivos concedidos a empresas? Continuando neste raciocínio, chegamos à conclusão lógica de que o pacotaço do governo está simplesmente repetindo uma velha receita já utilizada à exaustão pelos velhos cozinheiros da economia brasileira: o sacrifício da classe média para garantir a sustentabilidade dos planos econômicos.
O que os burocratas dos Ministérios da Fazenda e do Planejamento não sabem é que o cidadão comum não é o único prejudicado com esta artimanha. O próprio governo perde - e muito - ao dispensar este tratamento à classe média. E, o que é pior, perde o que há de mais precioso para os mandatários de uma Nação: a credibilidade. Afinal, como confiar na sincera disposição dos nossos governantes de resolver os problemas do País, quando sabemos que somos os únicos a nos sacrificar para garantir a viabilidade da economia?
Importa que o governo tome providências urgentes para resgatar sua credibilidade junto aos brasileiros, particularmente junto às classes média e baixa, assumindo o compromisso efetivo de satisfazer as aspirações da maioria da Nação. Do contrário, será muito difícil executar a contento qualquer plano econômico, qualquer medida destinada a sanear nossa economia. O tempo das compras ‘‘no fio do bigode’’, lamentavelmente, já passou. Agora, a regra que domina as relações mercantis em nossa sociedade é aquela expressa nas plaquetas vistosas colocadas nas mercearias dos bairros: ‘‘Fiado, nem amanh㒒.

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