A avalanche lançada sobre Bill Clinton, tornada verdadeiramente arrasadora com a divulgação, não só por jornais mas via Internet (vale dizer, para o mundo inteiro), do relatório do promotor Kenneth Starr sobre as relações do presidente norte-americano com a ex-estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky, apresenta dois resultados conflitantes e complicados. De um lado, há a reação política, as sugestões sobre o início de um processo de ‘impeachment’ contra o presidente, que são tanto mais graves porque o Congresso norte-americano tem franco predomínio republicano (Clinton, sabe-se, é democrata). Do outro, os resultados de pesquisas de opinião que indicam que o prestígio do presidente está em alta junto à população. Números que, inclusive, cresceram depois da publicação do relatório, com todas as suas nuances eróticas e, até mesmo, segundo os mais puritanos, imorais.
Antes mesmo que fossem tornados públicos os depoimentos de Monica e do próprio Clinton, ou que se confirmasse que, de fato, as famosas manchas no vestido da jovem eram mesmo o esperma do presidente, um destacado líder religioso se lançou contra ele, assinalando que as imoralidades cometidas (e confessadas) tornavam-no indigno do cargo, devendo ser afastado dele. No comentário, o pastor criticou a própria sociedade norte-americana, afirmando que as pesquisas indicavam que o povo estava mais preocupado com questões econômicas do que com a moralidade e insistia em que, devido ao pecado da carne, não havia como aceitar Clinton na presidência.
O que parece estar sustentando o prestígio do presidente norte-americano é o fato de o país estar vivendo uma situação econômica muito sólida. O apoio que ele recebeu da esposa Hillary, afinal, a grande vítima do escândalo, ajuda e os reiterados pedidos de perdão igualmente pesam. Entretanto, qualquer análise vai revelar que o que deve estar garantindo a imagem do presidente junto ao povo é a boa performance da economia. Clinton, como qualquer outro, foi eleito para governar o país do melhor modo possível. E garantir empregos, progresso, desenvolvimento.
A questão mais séria, porém, envolveria as eventuais consequências que uma atitude moralmente inaceitável possam ter sobre o indivíduo e a sociedade. Há também a considerar que se no caso Lewinsky a jovem - pelo que se sabe até agora - não se beneficiou ilicitamente das relações com o presidente, isto pode ocorrer em outras e não reveladas atitudes pouco morais de Clinton. O caso Lewinsky, sabe-se, não é único. Na verdade, surgiu com a outra denúncia, de Paula Jones, contra o mesmo Clinton, envolvendo idêntica matéria, o sexo. A primeira denunciante alega ter sido assediada sexualmente pelo atual presidente quando governador do Estado de Arkansas. Isto pode revelar uma outra faceta de quem usa o poder para conseguir favores.
Naturalmente, haverá também quem defenda Clinton por considerar que todas as discussões envolvem assuntos da privacidade dele, nada tendo a ver com o político. Esta também parece ser a opinião dos que continuam a considerar o presidente digno de confiança e merecedor de continuar no cargo até o final do mandato outorgado pelo povo. A distinção é importante e ninguém contesta o direito que qualquer pessoa, por maior destaque público que tenha, de ter garantida sua privacidade. Acontece que a garantia de privacidade em um lugar público (e, para muitos norte-americanos, até sagrado) como é o Salão Oval da Casa Branca, onde o presidente dá seu expediente e utilizou para os encontros com Monica, parece algo excessiva.

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