O presidente e os governadores - Miguel Ignatios
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 25 de fevereiro de 1999
Miguel Ignatios 
A reunião - melhor talvez seria chamar o evento de confronto - entre o presidente Fernando Henrique Cardoso e os governadores, hoje, marca definitivamente a entrada do País na era do pós-Real. Ou seja, em um período de transição, estimado em seis meses, no mínimo, durante o qual os principais indicadores da economia serão de difícil controle. Por tal motivo, é urgente a ação do governo na tentativa de recolocar sob controle pelo menos algumas das variáveis que compõem o conjunto de fatores da economia como, por exemplo, preços e salários.
Em tal contexto, a lição de casa passada pelo FMI (repor os gastos públicos, da União, das estatais federais, estaduais e municipais, dos Estados e dos municípios em níveis minimamente aceitáveis) representa um remédio amargo, mas necessário, a ser tomado em um momento particularmente difícil, devido à reversão das expectativas, como de costume excessivamente otimistas, ocorrida durante as tempestades de verão de janeiro passado.
Mas, afinal de contas, por quais motivos os governadores, principalmente os da oposição, resistem tanto ao corte dos gastos públicos? Pelos mesmos motivos que a União e o governo federal resistiram e postergaram por tanto tempo o necessário ajuste em suas contas. Ora, por que a União pôde empurrar com a barriga por tanto tempo a lição de casa e os governos estaduais e municipais não? O exemplo vem de cima, diz a sabedoria popular, e pouco adianta nós cobrarmos dos outros atitudes que não costumamos tomar.
O misto de revolta e de surpresa que tomou conta das hostes governistas com a rebeldia de alguns governadores justamente no momento mais difícil do Plano Real, a desvalorização da nossa moeda em relação ao dólar, em tal contexto, portanto, não passa de pura hipocrisia. E os argumentos usados pela oposição para justificar a resistência ao corte dos gastos (a União nos obriga a demitir funcionários, a repassar sacrifícios ao povo em nome da ortodoxia do FMI etc) também podem ser classificados como exemplos de cinismo explícito.
Os governantes brasileiros (governistas e oposicionistas, governadores ou prefeitos) precisam deixar de lado a mania, inventada pelo populismo, de culpar os outros (no caso, os tecnocratas do FMI) pela existência de problemas que eles próprios, juntamente com seus antecessores, criaram. Os gastos públicos têm de ser cortados não porque o FMI ou os investidores e/ou credores externos o exigem, mas, sim, porque é impossível por tanto tempo União, estatais, Estados e prefeituras conviverem com receitas de, por exemplo, R$ 1 milhão por mês e manterem despesas três, quatro ou até cinco vezes superiores.
Desde o governo Sarney, a iniciativa privada vem fazendo seus cortes de despesas, diminuindo seus desperdícios, aumentando sua produtividade e - suprema ironia! - recolhendo cada vez mais impostos, taxas e contribuições, empréstimos compulsórios e até mesmo confiscos para todos os níveis de governo. Agora, o setor produtivo da economia, ou o que sobrou dele, já exauriu sua capacidade de contribuir. Chegou, finalmente, a vez do governo (em todos os níveis) fazer a sua parte. Sem demora e sem as velhas e esfarrapadas desculpas de sempre.
Por isso, deixo, aqui, um conselho para a União e os governos estaduais e municipais mais endividados: mandem seus técnicos fazerem um pequeno estágio nas secretarias do governo Covas, que é o único que deve estar rindo de toda essa confusão. Afinal de contas, ele já fez um ajuste durante o primeiro mandato e agora planeja realizar o ajuste do ajuste. Sorte nossa, paulistas, termos elegido, por duas vezes consecutivas, um homem de tal quilate moral e de tamanha coragem cívica.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)
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