Temístocles, o ateniense, convidado a tocar cítara numa festa, disse não saber música, mas poderia fazer de uma pequena vila uma grande cidade. A sentença serve para explicar a natureza dos governantes. Há homens de Estado que sabem como torná-lo forte, apesar de não conhecerem música; há outros, exímios na arte musical, que, mesmo se esforçando, só conseguem jogar o Estado na decadência. A música, na metáfora, é o expediente de que se valem vivaldinos e oportunistas para deleitar as pessoas, por momentos, e tirar proveito próprio das situações. A imagem é adequada: Fernando Henrique, que poderia assumir o papel de Temístocles, aceitou tocar música na festa dos políticos. Um desastre. O resultado tem sido um concerto desafinado.
Afinal de contas, por que um presidente de altas qualificações, avaliado positivamente pela população, aceita entrar num jogo de cartas tão mal embaralhadas, como este da reeleição? Não foi ele mesmo que, há pouco tempo, trombeteou ser a reeleição uma questão a ser decidida pela sociedade? E ainda que não faria dela um cavalo de batalha? Por quê, agora, desce do ético patamar conceitual para brigar pela proposta, a ponto de dar um pito nos aliados peemedebistas, abrir fendas enormes nas bases de apoio, ameaçar com demissões, passando a impressão de que o País não pode seguir adiante se não resolver logo o problema?
A palavra pode ser dura, mas cobre a atual postura: o presidente está destrambelhado. Pois não há explicação para que um intelectual de seu porte, que comanda um dos principais programas de combate à inflação no mundo, respeitado internacionalmente, caia na vala comum do balcão das trocas fisiológicas, sob os apupos de turbas que povoam o sub-mundo da política, como essas estranhas figuras do MR-8, comandadas por múmias ultrapassadas, do tipo Quércia, Newton Cardoso e Paes de Andrade. Sabedoria não significa apenas domínio de conhecimentos. A natureza dos sábios é forjada pela arte da paciência, pela capacidade de não se deixar levar pelas paixões, pelo exercício de compreensão, pelos valores do respeito e moderação, pelo culto ao silêncio, no meio das tormentas. FH não está sendo sábio.


A palavra pode ser
dura, mas cobre a atual
postura: o presidente
está destrambelhado


Errou o presidente em exacerbar a proposta da reeleição, adiantando a pauta. Ele sempe soube que haveria natural ligação entre a questão e a presidência das casas legislativas. Se os candidatos pertencem a partidos aliados, seria mais lógico que o tema fosse tratado depois das eleições na Câmara e no Senado. Quem muito quer, muito perde. ‘‘A pessoa possuída por um ardente e incontrolável desejo de poder afastará, constantemente, os que a apóiam, tornando assim impossível a conquista do poder’’, lembra o sociólogo Robert Lane. O poder foge daquele que se deixa consumir por impulsos, de quem perde contato com a realidade. E quem tem assessores políticos como Sérgio Motta, macaco em estante de louça, não precisa ter adversários.
Não adianta fazer mais contas. O ambiente está contaminado. A fumaça chegou à sociedade em forma de controvérsia e interesses em jogo. A química da purificação passa pelo vapor social, ou seja, o plebiscito. Se o presidente tem o apoio da população, se os pobres continuam a comprar a cesta básica, por que tanto receio? É claro que o desemprego é grande, mas não a ponto de provocar a derrota do plebiscito. O povo só não quer é enganação, do tipo propaganda com os cinco dedos pintados com as cores do Brasil, mostrando que tudo está bem, coisa que se aparece com os efeitos colloridos (de Collor mesmo), ave agourenta que provoca calafrio.

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