O preço do caos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de setembro de 2001
René Ruschel 
A declaração do presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, ao explicar por que autorizou os Estados Unidos a usar o espaço aéreo de seu país numa provável invasão ao Afeganistão, revela uma das faces mais cruéis do capitalismo e, se não justifica as atrocidades humanas, ao menos expõe o pensamento que permeia este intrincado jogo de interesses. Disse Musharraf: ''Politicamente, podemos emergir como um país respeitável e as consequências econômicas podem ser muito boas''.
O caos e o terror não foram suficientes para explicar aos governantes que o mundo não pode girar exclusivamente em torno de estratégias militares, econômicas e financeiras. O atentado sofrido pelos EUA não tem qualquer justificativa. A atitude dos terroristas, sejam eles de qualquer origem, credo ou cultura, é simplesmente bestial, abominável.
No entanto, é preciso reconhecer que qualquer ato ou ação não nasce do acaso. Nada personifica mais este exemplo que a figura central deste imbróglio: Osana bin Laden. Nos anos da Guerra Fria, os americanos estimularam governos e líderes anti-soviéticos, como ditadores militares ao redor do mundo ou terroristas como Bin Laden. Este foi fiel e leal na luta contra o comunismo no mesmo Afeganistão; hoje é o principal inimigo.
Desde o período pós-guerra até o final dos anos 70, os Estados Unidos dividiram com a então União Soviética a hegemonia sobre o resto da humanidade. Após a queda do Muro de Berlim e o fracasso das economias socialistas, já na década de 80, os norte-americanos literalmente dominaram o mundo, criando regras políticas e econômicas, manipulando governantes e impondo seus interesses.
Nos últimos quinze anos, segundo o professor Milton Gamez, a personificação do livre mercado, modelo econômico que prevaleceu às alternativas comunistas e socialistas, fez dos Estados Unidos o ''endereço certo dos protestos contra os males do novo tipo de imperialismo - a globalização''. O resultado foi o aumento da concentração de renda nos países ricos em detrimento da periferia, a maior vulnerabilidade externa dos países emergentes, o crescimento do trabalho informal, a agressão ao meio ambiente e assim por diante.
Os poucos comensais que se sentaram à mesa do banquete e empanturraram a pança, não se importaram em apenas lançar os ossos ou dividir para a multidão os restos que não mais queriam. Basta uma rápida olhada em qualquer mapa-múndi que será possível visualizar a geografia da miséria humana e social.
O continente africano há séculos é uma sucursal do inferno; o Oriente Médio, o principal foco de tensão até agora, é um barril de pólvora que pode explodir a qualquer momento; a Ásia, exceto alguns poucos países, foi vítima de crise financeira que abalou os mercados de todo o mundo, inclusive eles próprios, transformando-se no quintal das nações mais ricas e com a mais cruel forma de exploração do trabalho escravo; a América Latina, com suas republiquetas e seus ditadores disfarçados de estadistas, tenta caminhar a reboque dos EUA e da Europa Central.
Daí a surpresa com a justificativa do presidente paquistanês. Querer abrir o espaço aéreo é uma questão de decisão política, mas invocar ''consequências econômicas'' é desprezar totalmente não só os sentimentos humanitários, como também demonstra a insensibilidade social e a inaptidão para o exercício do cargo.
Se alguma mudança deve ser feita a partir de agora, a mais importante é compreender que o mundo não pode ser dividido pela frieza dos números; pelo poderio bélico ou pela exploração dos miseráveis. Se nada justifica o terrorismo e suas atrocidades, nada também justifica a imposição de regras e valores cuja finalidade única é transformar os mais fracos em verdadeiras massas de manobra em favor dos poderosos. A conta veio tarde e cara, mas chegou.
- RENÉ RUSCHEL é economista e jornalista em Curitiba
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