O preço da indiferença
Joel Samways Neto
É coisa antiga, na história política brasileira, isso de dizerem que governante não gosta de fazer encanamento para água e esgoto, porque o cano fica debaixo da terra e ninguém vê - melhor é fazer chafariz na praça. Coisa antiga mas não de todo superada, haja visto o escândalo que ainda é o número de casas, neste país, desprovidas do saneamento básico.
Mesmo assim, os gerentes do poder público vão levando o assunto na maciota. Lembro de um prefeito de Curitiba que costumava caçoar do jornalista que lhe perguntasse sobre as muitas ‘‘valetas a céu aberto’’ existentes na cidade. O prefeito respondia que tinham que ser valetas a ‘‘céu aberto’’, pois, como engenheiro, nunca ouvira falar em ‘‘valeta a céu fechado’’ - e em seguida abria a boca num sorriso que lhe fechava os olhos. Geralmente, é desse jeito pouco sério que grande parte dos governantes tratam do problema. Daí, enquanto enfeitam o coreto, ladrilham calçadas, adornam a fonte e pintam os bancos da praça, as consequências do descuido para com o tratamento da água e do esgoto vão aparecendo, em forma de doenças. Eis o Vibrião Colérico, o milenar, novamente em cartaz.
Apareceu, ou ressurgiu, em Paranaguá, numa localidade onde as casas são construídas bem próximas de um manguezal que mistura sujeira, miséria e desamparo de políticas públicas mínimas. Agora, enquanto escrevo, os casos comprovados de contaminação passaram de 240. Três pessoas fizeram óbito.
O que é isso? Não bastou o sufoco que passamos, há alguns anos, quando a cólera, essa doença medieval, flagelou o Brasil e provocou aquele corre-corre atrás de hipoclorito de sódio? A causa foi, e é, fundamentalmente, a falta de higiene básica - leia-se educação. Aí a publicidade oficial seguiu à risca o preceito do caráter informativo, pedagógico, que deve orientar suas mensagens, e toda a sociedade aprendeu a ferver a água antes de beber, a cozer bem os alimentos antes de comer e a lavar as mãos depois de dejetar - isso e mais o soro caseiro. (Inclusive, esses hábitos, à época, geraram controvérsias, principalmente no tocante a lavar as mãos depois de dejetar. Porque o sujeito abria a torneira com a mão supostamente contaminada, lavava as mãos com sabão, e depois punha a mão limpa na torneira contaminada, para fechá-la.) Junto com a educação, porém, precisava vir a infra-estrutura elementar da água tratada e do esgoto encanado, tarefa trivial de governante.
É sempre assim, o remendo depois do furo. Tem que chover bastante, dar enchente, para ouvirmos falar de leptospirose - e alguém lembrar da fantástica população de ratos que vivem nos subterrâneos e terrenos baldios. Passa a chuva, baixa a água, o sol seca a umidade, e lá vão os governantes cuidar de novo da praça, ou do antipó.
Francamente, isso é uma imensa falta de vergonha-na-cara. Não há propaganda que dilua o medo dos paranaenses ou o pânico dos parnanguaras e demais habitantes da região. Estragou até o discurso do ministro do Turismo, que não vai poder discorrer, soltamente, sobre os pratos típicos do litoral, pois levam camarão, siri, peixe e outros meios de transporte do vibrião.
O que envergonha é que prevenir doenças como essa custa uma presença mínima de Estado. É dever essencial do poder público, be-a-bá, dois mais dois igual a quatro: é saneamento básico. Qual seria o preço para livrar da cólera a referida localidade em Paranaguá? Será que se pode comparar esse custo-benefício com, por exemplo, o tanto de dinheiro enfiado na comunicação social? A questão é que enquanto ficamos ouvindo ufanismos desbragados, de acontecimentos, inaugurações, de governos que nos tratam com amor e carinho, entre outras mensagens que não valem absolutamente nada do ponto de vista pedagógico, alguns cidadãos já morreram.
Nem que a vítima fosse uma só, ou que nem tivesse morrido, apenas se contaminado, e fizesse tratamento... já seria motivo suficiente para nos indignarmos, para sairmos em passeata protestando contra tamanha indiferença, pedindo a cabeça das autoridades que não tivessem se mostrado nem responsáveis nem competentes.
Algo cheira mal nessa história, e não vem do manguezal, não. É finalzinho do século 20, e o bravo Paraná está ameaçado por uma peste típica da Idade Média, obrigando, inclusive, comportamentos aos cidadãos de uma das tais melhores cidades do mundo para se viver.
Cadáver também fica debaixo da terra. Mas em cima há uma lápide.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado do Paraná em Curitiba.

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