O preço da fama
Desde os tempos do Barão do Rio Branco, a diplomacia brasileira mantém a imagem de ser uma das mais competentes e hábeis do mundo. Inspirado no modelo das escolas inglesa e francesa, hegemônicas na Europa, e, posteriormente, adotadas em maior ou menor grau pelas jovens nações das Américas, o Itamaraty consolidou sua fama no Império e manteve-a também na era republicana.
Se dos ingleses herdamos o pragmatismo, não conseguimos, todavia, até hoje, escapar do luxo, da pompa e da suntuosidade, tão característicos do modelo diplomático francês. Melhor exemplo disso foi a viagem do presidente Fernando Henrique Cardoso à Alemanha, no último dia 5, para inaugurar as novas dependências da embaixada brasileira em Berlim, capital daquele país desde a reunificação.
A nova embaixada brasileira naquela cidade, com sete andares, dois subsolos e vista panorâmica para o rio Spree, vai custar aos cofres públicos a bagatela de R$ 237 mil mensais.
A mídia como era de se esperar questionou o luxo e os gastos, ainda sem controle, das representações diplomáticas brasileiras no Exterior. Essa discussão é bastante oportuna hoje, quando, após pouco mais de seis anos de enormes sacrifícios, arcados por assalariados e pelo setor produtivo da economia, para equilibrar as contas públicas do País, tem início uma discreta retomada do crescimento.
Mais uma vez, a opinião pública brasileira teve certeza daquilo de que sempre desconfiou: a arrumação da casa, com as antipáticas medidas de contenção de gastos e de arrocho fiscal, impostas pela União à iniciativa privada e à sociedade civil, não teve a necessária contrapartida do Executivo, do Legislativo, do Judiciário e, agora ficou bastante explícito, também da diplomacia brasileira.
Ora, num contexto diverso e mais de um século depois, é como se, de repente, o governo republicano esquecesse do contingente de cerca de 30 milhões a 50 milhões de brasileiros excluídos e marginalizados e desse uma festa para milhões de convidados para comemorar a retomada do desenvolvimento. Uma espécie de baile da Ilha Fiscal, o último do Império, em plena era republicana. Uma afronta à cidadania!
Estamos vivendo uma época em que a sociedade civil está questionando tudo e exigindo transparência nas relações entre governantes e governados. É um processo doloroso, mas necessário para nossa emancipação política e civil. Ficamos sabendo, estarrecidos, que, nas palavras de Roberto Campos, os abusos adquiridos estão previstos nas leis e alguns são pasmem! constitucionais.
Todas essas mazelas, obviamente, não são culpa exclusiva do atual governo. São o resultado de décadas de vantagens legais, mas imorais, que a estatocracia criou para si. É claro que aos poucos a sociedade e o governo terão de desmontar esse modelo de privilégios injustos.
Dentro desse contexto, é mais do que oportuno que o governo dê início à política de transparência também na diplomacia brasileira e venha a público com explicações, no mínimo, plausíveis. Cortar despesas, fechar algumas representações diplomáticas, e abolir o luxo, a suntuosidade e os privilégios, não vão desmerecer a tradição e a competência do Itamaraty, reconhecidas por todos os brasileiros. Ao contrário, acrescentar-lhe-ão maior credibilidade.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)





