Nin­guém vai com­prar al­go pa­ra dei­xar tran­ca­do em um quar­to


Antigamente, as pessoas entendiam e valorizavam mais a arte

No mês passado, o manuscrito da letra da música ''The Times Are A-Changin'', de Bob Dylan, foi arrematado em leilão em Nova York por US$ 422.500,00, o equivalente a R$ 719.264,00. A letra, escrita a lápis pelo próprio astro, agora pertence a um colecionador. Ainda no mês passado, um retrato da atriz Elizabeth Taylor, feito por Andy Warhol, foi arrematado por US$ 63 milhões em Nova York.
O questionamento que surge é o que leva um aficcionado por arte a desembolsar valores astronômicos por determinadas obras de artes. ''Os colecionadores pagam preços altíssimos devido ao senso artístico apurado e também pelo status'', afirma Nini Barontini, marchande (profissional que tem como atribuição intervir no processo de distribuição da produção de um artista), da Nini Barontini Galeria e Assessoria de Arte, situada em Curitiba.
Nesta entrevista, ela ressalta que o Brasil está carente de cultura e de educação e lamenta o fato de muitos artistas caírem no gosto do público sem apresentar trabalhos de qualidade. ''O marketing pesa bastante, especialmente diante de um público que não tem muito conhecimento do assunto'', afirma.
Quais fatores são levados em conta para definir o valor monetário de uma obra de arte?
Antes de tudo é o nome do artista que é levado em consideração. Depois, vem a qualidade da obra. Em busca de maior visibilidade, o artista deve participar de exposições e de mostras. Com isso, divulga o seu nome e, consequentemente, aumenta o valor de sua obra.
A senhora acredita que há exagero nos valores pagos por colecionadores em leilões?
Quando um colecionador quer uma obra ele paga qualquer preço se tiver condições. Para muitas pessoas, é uma coisa absurda pagar valores altíssimos em obras, mas para o colecionador não é. No entanto, para comprar obras de arte caríssimas, é indispensável ter uma boa cultura. É preciso conhecer e valorizar a arte. Caso contrário, a pessoa dá até risada de quem adquire obras muito caras.
Recentemente um original de letra do cantor Bob Dylan foi arrematado por um colecionador por R$ 752 mil. O que leva alguém a desembolsar uma quantia tão alta por um pedaço de papel escrito a lápis?
É preciso entender o que aquele papel representa para a pessoa. Colecionadores e fãs pagam valores astronômicos por ter um senso artístico apurado e também pelo status. Pode acontecer de uma pessoa nem gostar tanto da obra, mas por conhecer muita gente que fala dela e quer tê-la acaba adquirindo puramente por status. Ao adquirir, com certeza, vai querer contar e mostrar aos amigos. Ninguém vai comprar algo para deixar trancado em um quarto.
Qual é o grau de influência da lei da oferta e da procura na definição do preço de uma obra de arte?
A influência é grande. É importante dizer que há artistas que caem no gosto do público mesmo sem apresentar um trabalho de muita qualidade. Infelizmente isso acontece muito. Há críticos que parecem não entender muito de arte e elegem uma determinada obra como boa. É uma avaliação incorreta, que acaba influenciando as pessoas.
Existe a possibilidade de que uma obra que não tenha um valor histórico e artístico tão importante seja supervalorizada por ações de marketing?
O marketing pesa bastante, especialmente diante de um público que não entende muito de arte. Antigamente, as pessoas tinham uma cultura melhor, entendiam e valorizavam mais a arte no Brasil. Aos poucos isso foi mudando. Lido com arte há 37 anos e posso dizer que antes era mais fácil trabalhar. Os pais devem se esforçar para aguçar o senso artístico nas crianças. As escolas também podem fazer a sua parte. No meu tempo nós tínhamos aula de desenho, o que aguça a criatividade. Hoje, o País carece de cultura e educação.
Fraudes e falsificações são comuns no mercado de obras de arte?
Sim. Eu já vi muita obra falsificada, o que é uma pena. As pessoas que não entendem de arte acabam comprando obras falsificadas.

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