O pragmatismo do Itamaraty
Miguel Ignatios
A habilidade diplomática do Itamaraty, evitando a adoção de sanções econômicas contra o Peru, em decorrência da alegada falta de transparência das recentes eleições, que deram ao presidente Fujimori seu terceiro mandato consecutivo, não deve ser entendida como conivência com eventuais arranhões à democracia no subcontinente latino-americano. Ao contrário, tal atitude revela um pragmatismo extremamente pertinente por parte do nosso Ministério das Relações Exteriores.
Entre aceitar mais um mandato de Fujimori e conviver com o boicote comercial e de investimentos inicialmente ao Peru, mas que, logo em seguida, poderia se estender à Venezuela e à Colômbia, ou aceitar a dura posição norte-americana, nossa diplomacia optou pela melhor escolha. É que a proposta americana – de pressionar Fujimori – trazia implícita a desorganização da frágil economia da Comunidade Andina, criando, a partir daí, um efeito dominó devastador, que acabaria por atingir o Mercosul.
Com isso, não haveria mais obstáculos à criação, até 2005, da Associação de Livre Comércio das Américas (Alca) nos termos defendidos hoje por Estados Unidos, Canadá e México, parceiros do Mercado Comum da América do Norte (Nafta).
A adesão pura e simples dos países das Américas Central, do Sul e do Caribe à Alca seria o mesmo que formar uma comunidade que congregasse, com os mesmos direitos e deveres, de um lado, detentores de capital e tecnologia (Estados Unidos e Canadá); e, de outro, exportadores de matérias-primas e de commodities agrícolas.
Como o leitor pode deduzir, a questão colocada em evidência pelos defensores das sanções comerciais contra o Peru não é – como talvez imaginem os ingênuos – a defesa da democracia no continente, mas como obter vantagens econômicas com tal discurso.
O pragmatismo diplomático não é invenção brasileira. Provavelmente, seus criadores tenham sido os romanos. Nos tempos modernos, britânicos e americanos tornaram-se seus mais aplicados seguidores. ‘‘Um país não tem amigos; tem interesses.’’ Com tal bordão, em plena guerra fria, o ex-secretário de Estado americano John Foster Dulles inaugurava, na década de 60, a atual política externa pragmática dos Estados Unidos.
Os interesses, nem sempre explícitos e identificáveis, costumam condicionar a ação política da diplomacia americana. Por exemplo: pressiona-se Fujimori por eleições transparentes, mas se tolera o México, que só neste ano, após nove décadas, realizará as primeiras eleições com candidatos de oposição ao Partido Revolucionário Institucional (PRI), no poder desde 1910.
Cuba, antes da tomada do poder por Fidel Castro, em 1959, também era governada com mão de ferro pelo ditador Fulgêncio Batista. Mas contra ele nunca houve sanções comerciais. Mais recentemente, quando a ONU recomendou o boicote ao regime racista sul-africano do apartheid, os Estados Unidos mantiveram o intercâmbio comercial e os investimentos com aquele país que então era governado por uma minoria branca. Hoje, o governo americano procura corrigir alguns erros grosseiros cometidos no passado como, por exemplo, o apoio ao governo racista da África do Sul mas incorre em outros, apesar dos avisos dos aliados.
A versão brasileira do pragmatismo diplomático é bem menos ousada do que a americana. Mas, em contrapartida, a prudência demonstrada em alguns episódios, dentre eles o boicote ao regime racista da África do Sul e o apoio à independência e pacificação de Angola, tem rendido ao Brasil dividendos políticos valiosos.
A diplomacia brasileira deverá colher, em breve, os frutos de sua corajosa atitude ao dizer não às sanções contra o Peru, para dividi-los com toda a América Latina.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)
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