O povo. Pra que o povo?
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de janeiro de 1997
Alfredo Leão 
O plebiscito não deve ser feito, porque o povo elegeu os deputados federais e senadores. Portanto, esses legítimos representantes do povo podem decidir esta questão sozinhos, disse, com este sentido, o governador de Góias, Maguito Vilela, respondendo à pergunta sobre Por que não plebiscito?, feita por um jornalista no Roda Viva, programa da TV Cultura de São Paulo, na última segunda-feira.
Calma lá, sr. governador.
Não temos aqui uma simples relação entre o doutor Victor Frankenstein e a sua criatura, identificada pelo seu sobrenome. Os senhores políticos, que nomeados por meio do voto - a maioria das vezes erradamente -, não são tão autônomos quanto pretendem, inclusive com a conversa fiada de imunidade parlamentar - mas isto é outra história.
Quer dizer que, numa questão de tal profundidade, os destinos da nação não devem ser determinados pelo povo, e sim por aqueles que foram eleitos, nem sempre de maneira tão digna, num pleito em que o poder monetário significou muito mais que ideologia, ética, respeito, capacidade profissional e mais estas outras baboseiras que os homens que sentam na cadeira esquecem no primeiro dia ou na primeira pressão sobre o passado.
Na democracia vale qualquer manifestação, de qualquer direção, com qualquer vento. Menos uma postura arbitrária de um governador que na impostação tenta passar seriedade, às vezes, até lembrando Orestes Quércia e seus asseclas. Um lindo discurso, grandes obras, respostas hábeis, jeitão messiânico, as contas abertas a consultas, a aposentadoria rejeitada e uma infinidade de legislação correndo atrás.
O Brasil está mudando. Estamos atentos às promessas sem base formal. Dentro de uma política eleitoreira não se consegue entender como Maguito Vilela elogia tanto seu antecessor, se teve que fazer mudanças tão drásticas em relação à sua, dele, administração e, da qual, não esqueçamos, ele era vice-governador.
Tentar encontrar
razão na insanidade
do poder é uma
tentativa vã
Mas tentar encontrar razão na insanidade do poder é uma tentativa vã e, possivelmente, insana. Com uma canetada, um telefonema, em minúcias, um sinal, o destino de toda uma sociedade pode mudar. É muita responsabilidade para quem não tem conhecimento científico e pragmático para tal decisão. Assim, o Congresso e o Senado funcionam à base de poucos, que ditam as normas, enquanto outros tantos se preocupam com verbas, empregos (para os seus), obras, verbas. Isto não quer dizer que os que respondem pelas decisões mais sérias não falem de verbas, verbas e verbas.
Permita-se praticamente tudo aos políticos no Brasil, mas a apologia ao reacionarismo, sr. governador, é demais!


