O povo paga
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de julho de 1997
Fernando José Dias da Silva 
E tem gente que ainda acha que não existe mais esquerda e nem direita. Existe sim, só que elas estão idiotizadas e quem paga é o povo que não é nem de esquerda e nem de direita.
A direita acha que a globalização e todas as suas consequências são inevitáveis como as leis da física - a gravidade, o atrito, a relação entre massa e velocidade. Assim as hordas de desempregados, as multidões de famélicos, os batalhões de pessoas excluídas não só da sociedade, mas também dos limites da sanidade mental, são contingências do processo. É lamentável. Paciência.
A esquerda ainda está na velha luta de classes esperando que apareçam novas vanguardas que tomem a revolução nas mãos. A esquerda é conservadora e está chegando ao ponto de defender o indefensável, como a permanência do status quo de gente que não merece, de uma cultura trabalhista que está beneficiando um estilo burocrático que não tem mais sentido de ser e ajuda, na maioria das vezes, os piores.
Em benefício da esquerda e da direita é preciso dizer que o campo não está definido. A mobilidade da força de trabalho, a circulação de mercadorias, a onipresença da informação e a produção imaterial e desterritorializada são características desses novos tempos, mas não existe ainda regras do jogo especificadas - que pode até ser o fato de não haver, de maneira nenhuma, regras.
E é aí que a esquerda erra porque ainda pensa na velha classe operária da linha de produção quando o conjunto das novas forças de trabalho são imateriais, tem como símbolo o computador, e não mostram tendências da unificação política. Essas novas forças produtivas não conseguem unificação de seus interesses específicos, não existe coesão para se levantar a velha bandeira do solidarismo sindical e político. São tempos de individualismo e perda das características cidadãs.
Mas enquanto eles não acham saída a classe média tem o lombo lanhado de tanto apanhar. Ela jamais irá para o paraíso. O próprio ministro Pedro Malan já admitiu: quem levou a pior, nesses tempos de real, foi a classe média.
O aluguel nesses três anos de plano subiu 565%. Os transportes urbanos alcançaram 172%. Os combustíveis 43%. Serviços domésticos 311%. Serviços em geral 205%. Telefone 290%. Escola 145%. Saúde 100%. É mole? Enquanto a inflação ficou nos 65% nesses três anos.
E isso não é só no Brasil. Em países tidos como mais desenvolvidos, as coisas também estão pretas para a classe média. Nos Estados Unidos estão dizendo à classe média que suas antigas expectativas estão desatualizadas.
Lester Thurow, o economista do M.I.T, no seu O Futuro do Capitalismo afirma que um número bem menor de membros da classe média vai poder ter casa própria. Eles (a classe média) irão viver num mundo muito diferente, onde a desigualdade cresce e os salários reais caem para a maioria.
Acabou a era dos aumentos salariais anuais; eles não podem esperar por padrões de vida mais elevados ao longo de suas vidas, ou para seus filhos.
A classe média está assustada e deveria estar. Ela não possui riquezas herdadas e precisa depender da sociedade para sua segurança econômica, mas é exatamente isso que ela não terá. O governo está abandonando a provisão de segurança econômica e as empresas estão tratando seus membros como pistoleiros de aluguel, com cada vez menos benefícios que garantam a segurança.
Era isso o que tinha a dizer Lester Thurow. Mas afinal de contas a alma ainda subexiste. E sem alma, dizia Nelson Rodrigues, não se toma nem um picolé.


