E tem gente que ainda acha que não existe mais esquerda e nem direita. Existe sim, só que elas estão idiotizadas e quem paga é o povo que não é nem de esquerda e nem de direita.
A direita acha que a globalização e todas as suas consequências são inevitáveis como as leis da física - a gravidade, o atrito, a relação entre massa e velocidade. Assim as hordas de desempregados, as multidões de famélicos, os batalhões de pessoas excluídas não só da sociedade, mas também dos limites da sanidade mental, são contingências do processo. É lamentável. Paciência.
A esquerda ainda está na velha luta de classes esperando que apareçam novas vanguardas que tomem a revolução nas mãos. A esquerda é conservadora e está chegando ao ponto de defender o indefensável, como a permanência do ‘‘status quo’’ de gente que não merece, de uma cultura trabalhista que está beneficiando um estilo burocrático que não tem mais sentido de ser e ajuda, na maioria das vezes, os piores.
Em benefício da esquerda e da direita é preciso dizer que o campo não está definido. A mobilidade da força de trabalho, a circulação de mercadorias, a onipresença da informação e a produção imaterial e desterritorializada são características desses novos tempos, mas não existe ainda regras do jogo especificadas - que pode até ser o fato de não haver, de maneira nenhuma, regras.
E é aí que a esquerda erra porque ainda pensa na velha classe operária da linha de produção quando o conjunto das novas forças de trabalho são imateriais, tem como símbolo o computador, e não mostram tendências da unificação política. Essas novas forças produtivas não conseguem unificação de seus interesses específicos, não existe coesão para se levantar a velha bandeira do solidarismo sindical e político. São tempos de individualismo e perda das características cidadãs.
Mas enquanto eles não acham saída a classe média tem o lombo lanhado de tanto apanhar. Ela jamais irá para o paraíso. O próprio ministro Pedro Malan já admitiu: quem levou a pior, nesses tempos de real, foi a classe média.
O aluguel nesses três anos de plano subiu 565%. Os transportes urbanos alcançaram 172%. Os combustíveis 43%. Serviços domésticos 311%. Serviços em geral 205%. Telefone 290%. Escola 145%. Saúde 100%. É mole? Enquanto a inflação ficou nos 65% nesses três anos.
E isso não é só no Brasil. Em países tidos como mais desenvolvidos, as coisas também estão pretas para a classe média. Nos Estados Unidos estão dizendo à classe média que suas antigas expectativas estão desatualizadas.
Lester Thurow, o economista do M.I.T, no seu ‘‘O Futuro do Capitalismo’’ afirma que um número bem menor de membros da classe média vai poder ter casa própria. ‘‘Eles (a classe média) irão viver num mundo muito diferente, onde a desigualdade cresce e os salários reais caem para a maioria.
Acabou a era dos aumentos salariais anuais; eles não podem esperar por padrões de vida mais elevados ao longo de suas vidas, ou para seus filhos’’.
‘‘A classe média está assustada e deveria estar. Ela não possui riquezas herdadas e precisa depender da sociedade para sua segurança econômica, mas é exatamente isso que ela não terá. O governo está abandonando a provisão de segurança econômica e as empresas estão tratando seus membros como ‘‘pistoleiros de aluguel’’, com cada vez menos benefícios que garantam a segurança’’.
Era isso o que tinha a dizer Lester Thurow. Mas afinal de contas a alma ainda subexiste. E sem alma, dizia Nelson Rodrigues, não se toma nem um picolé.

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