O povo e as ''coisas ruins'' - Gaudêncio Torquato
Gaudêncio Torquato
No chiste, atualizado, o kosovar, que perdeu os pais, a mulher, os filhos, a casa, chega perto de Deus e indaga: Por que o Senhor tem sido tão injusto com a Humanidade? Nascemos no berço da civilização, mas temos de conviver com guerras, ódio e morte, até hoje? Deus disse: Tenho procurado ser justo. Vejam o Japão. É uma tripinha de terra, mas um gigante tecnológico. Olhe os Estados Unidos, a maior potência mundial, mas atormentada por ciclones que devastam regiões. Penetre nos encantos e mistérios da Índia, contemple as belas paisagens africanas, mas fuja da miséria daquelas paragens. Conhece algo mais lindo que os fiordes da Noruega? Veja o gelo que joguei lá. Por que tanto petróleo no subsolo da Arábia Saudita e do Kuwait? Para compensar a tristeza de viver sob aqueles costumes. O kosovar não se deu por vencido: E o Brasil, com seu imenso território, sol o ano inteiro, costa monumental banhada pelo Atlântico, terras férteis, sem terremotos, ciclones e guerras? Por que tanta condescendência? Deus foi taxativo: Veja o povinho que coloquei lá.
Pois é, a fama que o brasileiro tem, convenhamos, não é muito positiva. Se a CPI da Propina, em São Paulo, acaba em pizza com sobremesa de marmelada, ou se as duas que operam no Senado não derem resultado, a culpa acabará recaindo sobre a incapacidade do povo na escolha de seus representantes. Pelé, ao afirmar, um dia, que o povo não sabe votar, interpretou o sentimento de parcela de nossas elites.
Pode-se até considerar viável a planilha de características negativas que Afonso Celso, em seu livro Porque me Ufano de Meu País, publicado em 1900, traçou do povo, entre as quais a falta de iniciativa, de decisão, de firmeza, pouca diligência, pouco esforço. Mas as características positivas apontadas são mais densas e diversificadas, como o sentimento de independência, hospitalidade, afeição à ordem, paciência e resignação, doçura, escrúpulo no cumprimento de obrigações, caridade, fácil acesso, tolerância, honradez pessoal. Do princípio do século aos nossos dias, os valores foram alterados, mas do conjunto pode-se extrair a idéia geral de um brasileiro cordial, ingênuo, paciente e afeito à ordem.
Se não é o povo, quem são os culpados pelas coisas ruins que cercam a vida nacional? Os dois outros eixos que formam o sistema político: a representação popular e o governo. Ora, o povo determina as demandas; os representantes interpretam, moldam e legislam sobre as demandas; e o governo promove as ações para atender às necessidades e criar bem estar. O povo escolhe representantes pelo ideário e recompensas oferecidas, materiais e psicológicas. É natural, até, que alguns milhares de dentaduras e óculos, que aleijam bocas e entortam olhos de nordestinos e nortistas, sejam responsáveis por alguns de nossos deputados. O homem só alcança sua plenitude humana, já dizia Kant, por meio da educação. E um homem sem educação é capaz até de votar em tortos de espírito. Mesmo assim, o povo brasileiro tem, a cada eleição, renovado o Congresso em cerca de 2/3.
Portanto, as coisas ruins estão no mundo dos governos e da representação política. E o que as geram? Alguns fatores: descumprimento do dever, desonestidade de propósitos, falta de coerência, falta de autoridade, ausência de visão de conjunto, falta de ousadia, paternalismo, fisiologismo, familismo, grupismo. Quem identificar autoridade na figura do presidente Fernando Henrique, levante o dedo. Quantos? Quem identifica descumprimento do dever por parte de muitos parlamentares? No Congresso, há, sim, representantes ousados, que procuram combater o câncer que se instala no pulmão político, praticando a loucura furiosa a que se referia Sartre como condição para o homem recriar-se a si próprio. Mas são poucos.
E o que se pode fazer mais para corrigir as distorções? Algo como o recall legislativo, existente no sistema norte-americano, que consiste na cassação do parlamentar, em pleno mandato, desde que seja comprovada a traição aos compromissos. Por meio de representação popular, com índice eleitoral a ser estabelecido por região, as mesas dos Parlamentos poderiam abrir processos contra acusados. Se isso não pode ser feito imediatamente, que se faça pressão, muita pressão. Como diria Fernando Henrique, quem não tem cão, caça com gato. E quem não tem gato? O jeito é matar o rato à paulada, com pressão.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)
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