Se a ditadura militar dos anos 60 e 70 fez vítimas fatais, torturou e mutilou, os que militavam nas facções contrárias viriam se revelar mais tarde pouco idealistas, porque muitos deles ingressaram com ações reivindicando indenizações em dinheiro, e foram beneficiados. Familiares dos que - em combate ou nas prisões - foram mortos, tiveram o mesmo procedimento e não hesitaram em pedir resgates. Passados 43 anos desde o início desse golpe militar de direita, e mais de 20 anos depois que o regime foi extinto, sentenças finais estão sendo proferidas agora.
Nesta semana os jornais noticiaram que foi concedido o pagamento de pensão vitalícia de R$ 12 mil à viúva do guerrilheiro Carlos Lamarca, além de uma indenização para ela e os filhos num total de R$ 300 mil. Afora a pensão, porque Lamarca era militar de carreira, tais pagamentos - feitos com recursos do povo - são descabidos, porque esses combatentes lutavam pela tomada do poder e não por uma causa patriótica, embora o pano de fundo da ditadura estampe claramente que o regime imposto era de exceção e violentador da democracia. Também os militares visaram o controle do poder (e o conseguiram por quase duas décadas), portanto a luta tinha o mesmo objetivo comum.
A nação não precisava ser defendida nem pelas direitas e nem pelas esquerdas, e a segurança nacional que se apregoava defender era apenas ideológica e não mais instável do que é agora, ante tanta violência comandada pelo crime organizado e pela corrupção nos meios governamentais. Estribados no alardeado ideal de defesa da segurança interna, os militares serviam na verdade a anseios externos de domínio, pelo temor do comunismo. Era mais o servilismo a uma causa estrangeira do que a defesa dos brasileiros. O comum dos cidadãos nem se dava conta de que havia um cerceamento de liberdades, porque a ele esse atributo não fazia falta, até porque não era incomodado.
Os que reagiam eram os políticos de esquerda não muito conscientes, as militâncias organizadas e isoladas, intelectuais, inocentes úteis e muitos deslumbrados. Alguns deles (Lamarca incluído) eram tão violentos quanto aqueles a quem combatiam. Outros eram apenas festivos. Havia entre eles, é bem verdade, idealistas legítimos. Ao recorrer a indenizações, esses militantes e guerrilheiros desnudam a fragilidade dos seus ideais de então. Ora, se eles diziam doar-se à causa da pátria, não iriam mais tarde cobrar por essa luta. Disputa por disputa, tanto esses insurgentes quanto os militares da época podem hoje levantar a mesma bandeira e proclamar que lutavam pela defesa da democracia e das garantias institucionais. Atente-se para o fato de que as vítimas das fileiras oficiais (salvo algum caso isolado) não reclamaram indenizações. O exemplo deve servir, hoje, para um olhar sobre os ''arautos'' da democracia, que não visam outra coisa senão manter-se no poder e dele tirar proveito próprio. Os idealistas e verdadeiros democratas são pouquíssimos.

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