Não há por que sofismar. Quem tem a caneta na mão e é candidato à reeleição usa - mesmo - a máquina para se reeleger. A lei eleitoral, por mais cuidado que os legisladores tenham tido para distinguir os espaços do governante e do candidato, não consegue desfazer uma equação que está na cabeça das pessoas. A equação é: presidente e/ou governador que é candidato tem mais visibilidade, mais força e, consequentemente, maior presença junto ao eleitor que os opositores. Maior volume de comunicação e poder geram condições melhores de cooptação eleitoral. A recíproca é verdadeira.
A proibição para que os atuais governantes compareçam a inaugurações não tem consequências práticas. Em um país de cultura política não sedimentada como o nosso, onde os governos funcionam como mandatários imperiais, com poder de mando e desmando, com força para empregar e desempregar, a regra é: quem é dono da flauta, dá o tom. Maestros da orquestra, os governantes, sem nenhuma exceção, harmonizam a melodia ao sabor das circunstâncias. Se não podem comparecer a inaugurações, mandam assessores e secretários representá-los. Quando chegam a alguma comunidade, na condição de candidato ou de governante, trazem, imantada a imagem, o cobertor do poder.
Exercem a liturgia do cargo, mesmo os mais modestos ou aqueles mais compromissados com posturas éticas. O bordão é o mesmo para todos: ‘‘Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei’’. Em estados pobres, o poder dos governadores é devastador. A massa de trabalhadores depende fundamentalmente dos governos. Forma-se, por consequência, uma corrente de dependência e influência, que invade todos os espaços. O produto da pressão é o medo. A locução é comprimida; o verbo não flui como nas grandes metrópoles. Se uma pessoa é abordada na rua para falar sobre um problema qualquer, desculpa-se e evita a exposição com receio de se comprometer. Teme ser reconhecida pelo Grande Irmão - o olho fatídico do governo - que, em represália, poderá puni-la, com sua demissão ou a de algum parente.
A máquina dos governadores está fomentando, na atual campanha eleitoral, uma cultura de proselitismo, bajulação e intereses estranhos. Sabe-se que, em Roraima, juízes auxiliares do TRE teriam concedido ao governo, no espaço de menos de 15 dias, oito direitos de resposta no jornal de oposição, por conta de denúncias, algumas amparadas até em documentos oficiais. No entanto, 64 representações contra o governador foram indeferidas. A opsição tem perdido todas. Até as Notas de Redação, instrumento usual da imprensa, estariam ensejando novas ordens para republicação do direito de resposta, o que seria, no mínimo, uma extravagância.
Mas há casos de comportamento exemplar. Em Brasília e no Amapá, os juízes proibiram o uso da logotipia oficial dos governos. Em São Paulo, pesadas multas estão sendo aplicadas aos candidatos, sendo a maior delas ao próprio candidato que lidera as pesquisas, Francisco Rossi (PDT), por ter feito propaganda pessoal no espaço de comunicação dedicado aos partidos. Aliás, em São Paulo as multas pegaram ainda Paulo Maluf (PPB), Mário Covas (PSDB) e Marta Suplicy (PT).
Infelizmente a reeleição, que é um estatuto de país desenvolvido, nos costumes e na política, está sendo usada como estratégia de dominação e de manutenção de grupos. Torna-se um instrumento de perpetuação do conceito de ‘‘política como negócio’’. A política passou a ser um grande empreendimento. São muitos os casos que envolvem conivência entre administrações públicas e grupos privados que prestam serviços aos governos. Sabe-se que a participação dos intermediários varia de 2% a 20% em obras resultantes de ‘‘licitações arranjadas’’. O apadrinhamento político é geral. O nepotismo é uma mancha negra que macula a imagem de muitos governantes. Familiares se locupletam de riquezas e não têm vergonha de exibir opulência. O Ministério Público Federal, em alguns estados, procura apurar as histórias e os escândalos, mas o processo judicial é lento.
O jogo de conveniências e as relações ambíguas entre políticos, grupos privados e o Poder Judiciário, em alguns estados, projeta o País no mapa da barbárie. O espaço da vida pública está sendo, a cada dia, maculado pela ambição da vida privada. São poucos os candidatos que se inspiram na idéia central de decência, no escopo da justiça e no lema da igualdade de oportunidades, no zelo pela coisa pública, na atenção para as reais necessidades do povo. Dignidade é um conceito muito apregoado e pouco praticado. Daí a grande rejeição da classe política pela população. Se o voto fosse facultativo, as urnas sofreriam um grande abalo.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)
(E-mail: [email protected])

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