O poder sem honra
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de setembro de 1998
Joel Samways Neto 
Já deu para qualquer um perceber que as sociedades humanas já caminham de crise em crise. E nesse aspecto, todas são iguais, sejam no Primeiro Mundo, sejam de Quarto Mundo. A diferença está no estágio civilizatório. As sociedades mais civilizadas, porque são mais organizadas, parecem sofrer menos.
Se observarmos esse fenômeno no Brasil, verificaremos que esta última década do século vem sendo marcada por profundas mudanças nos sistemas sociais - porque, basicamente, as crises estão eclodindo uma atrás da outra. Os desencontros nas polícias civil e militar, a leviandade da imprensa maledicente, a doença do sistema de saúde dos usuários perplexos, o pavor das gangues juvenis e do tráfico de drogas nas salas de aula, a incerteza do consumidor de remédios. Denúncias, acontecimentos, as histórias de negligência, imprudência, corrupção verteram dos sistemas institucionais brasileiros feito bueiro entupido em dia de enchente.
Trata-se de um quadro geral de crise de valores, que pode ser explicado por esse fenômeno sociológico, aliás de uma patologia social, que é o exercício do poder sem honra.
Esse fenômeno do exercício desonrado do poder existe em todos os grupamentos sociais, da família à empresa, das igrejas às associações de lazer. Em cada unidade funcional, onde houver grupos humanos, ali notaremos titulares de poder. Ali teremos a figura do status, a posição de liderança, com seu respectivo papel a ser desempenhado. Na família, por exemplo, o pai e a mãe ocupam a posição de liderança, e cada um com sua tarefa a desempenhar, cada um desempenhando à sua maneira. Então, não é apenas um delegado de polícia que, no desempenho do seu papel, pode desonrar o poder de que se reveste seu cargo. Também não é só o governante que, desequilibrado, exercita o poder sem honra. Um pai, um líder religioso, um professor, um patrão, um chefe de repartição, um jornalista, qualquer um pode cometer o exercício desonrado do seu espaço de poder.
Na esfera privada, empresarial, obviamente não se está tratando de um crime organizado mas de organizações que, de repente, agem desonradamente, impondo ao mercado a concorrência desleal, ou até expondo o consumidor a perigos, com o intuito de destruir o concorrente. Haja vista a crise dos medicamentos falsos. Indústrias idôneas - de uma idoneidade cultivada durante décadas de trabalho responsável - vêem-se na berlinda da suspeita, da desconfiança, por causa da derrama de remédios falsificados. Qual indústria pode se dizer, hoje, totalmente imune a esse tipo de terrorismo, praticado, sabe-se lá, talvez, por mera disputa comercial? Do mesmo modo, qual sociedade estaria imune a fraudes que podem ser cometidas por lideranças religiosas? A exploração da boa-fé não tem limites. E um líder religioso pode, desonrando o poder que lhe depositara a confiança dos seus seguidores, construir uma imensa estrutura mercantil unicamente de autopreservação. Assim também é o governante que, não sabendo honrar os compromissos do cargo, pode transformar o governo numa agência de favores a pequenos grupos, frustrando a expectativa social de administração justa.
O poder, em sentido amplo, tem seu exercício historicamente vinculado a determinados parâmetros (se vem sendo historicamente vilipendiado, isso é uma outra grave questão). Há uma expectativa imanente ao espírito dos administrados, dos tutelados, dos educandos, dos subordinados, dos leitores, no sentido de que a pessoa que exerça o poder faça-o com honradez. Que respeite as leis morais, éticas, jurídicas, pertinentes ao desempenho do cargo, da posição que ocupa. Sobretudo, que respeite essa expectativa que as pessoas têm, em relação ao exercente do poder, acerca do cumprimento do dever, do agir honestamente, do compromisso com a verdade.
Felizmente, nenhuma sociedade ruiu por completo apesar de tanto exercício de poder sem honra. Isso porque a desonra chegou a ser regra geral, nunca foi uma unanimidade (embora a honradez, algumas vezes tenha ficado por um fio). Mas agora é preciso que se fortaleça na mentalidade social a estrutura de confiança e certeza entre as partes, o titular do poder e o usuário do que o poder faz. Essa conquista depende da participação de todos. Compete a cada um de nós tomar conta desse valor tão imprescindível à manutenção do pacto social - a honra. E é bom que comecemos logo pelo controle dos nossos próprios atos.


