Os assessores mais próximos do presidente Fernando Henrique responderam às críticas dos presidentes dos tribunais de Justiça do País - que acham crescente e perigosa a concentração de poder nas mãos de chefe do governo, mas foram praticamente desmentidos pelo próprio FHC. Do alto dos poderes que possui, legalmente ou de fato, o presidente comentou os trabalhos da CPI do Senado, sobre títulos públicos, e se mostrou contrário a que as investigações parlamentares dos precatórios se ampliem e alcancem todo o sistema financeiro.
Pode até não ter sido essa a intenção do presidente, mas suas palavras constituem interferência em questão interna do Senado, de grande interesse público. E isso acontece com a naturalidade das coisas costumeiras, em seguida à notória participação de FHC no processo de escolha dos dirigentes das duas casas legislativas. É, como se diz: o uso do cachimbo entorta a boca e o fumante inveterado não consegue esconder o defeito criado pela prática de seu vício.
Nada pode ser tão sem propósito quanto a pretensão de limitar o trabalho de uma CPI, que funciona bem, apura fatos determinados e ajuda a devassar, sem tropelias, parte do mundo de corrupção existente no mercado financeiro nacional.
As investigações parlamentares, ao que se percebe, mal chegaram ao Cabo das Tormentas de todas as CPIs, o momento em que elas começaram a incomodar os setores investigados. Mas foi esse cabo que, ao ser ultrapassado, abriu o caminho das Índias para os navegadores portugueses e passou a chamar-se de Boa Esperança. O mesmo acontece com as CPIs que chegam ao fim com resultados concretos.
Imaginem se D. João II, de Portugal, no momento decisivo dos descobrimentos marítimos, determinasse a seus pilotos o fim das navegações no rumo do sol nascente! Em termos, é isso o que o presidente parece esperar da CPI. Pare! Não vá mais longe! Que seria de Portugal sem o desfecho da prodigiosa aventura marítima de seu povo? Que seria da história dos Estados Unidos (pelo visto esse país só é modelo aceitável para fins de pregação de um neoliberalismo do qual ele mesmo já se agastou) sem as investigações congressuais, conforme indaga Talford Taylor em ‘‘Grand Inquest’’? E que será do governo FHC, caso as investigações do Senado sejam suspensas, no ponto em que se encontram, a seu pedido?
Vez por outra, no EUA, surgiram choques entre o Legislativo e o Executivo, sobre investigações no Congresso. Geralmente, porém, nesses casos, não prevaleceram a palavra ou as conveniências políticas presidenciais, mas a lei e o interesse público, apurados, com rigor, pelo Judiciário.
Ignora-se como acabarão os trabalhos da CPI sobre os precatórios, que - ninguém nega - estão sendo úteis ao País e, por isso, não devem ser interrompidos, a pretextos subalternos, venham eles de onde vierem. Só se espera que não venham do vértice mais poderoso do triângulo na Praça dos Três Poderes.

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